31/10/26

Além das trevas

      "Torre forte é o nome do Senhor; para ela correrá o justo, e estará em alto retiro." Provérbios 18.10

      Há uma porta de luz, além da caverna escura. Há revelações de mistérios além da proteção exotérica das religiões. Há liberdade além das cadeias humanas. Há virtude além dos vícios. Há conhecimento lúcido além da fé sob o véu. Há vitória real e paz que permanece além da pesada matéria inferior e no elevado retiro do Altíssimo. Há mais para quem está preparado e se dá ao trabalho. 

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Parábola da Caverna

       “Porquanto tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei em retiro alto, porque conheceu o meu nome. Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei. Farta-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação.” Salmos 91.14-16

      Um homem vivia dentro de uma escura caverna, ele havia nascido lá, como seus parentes e conhecidos. Na caverna havia crescido, achado uma companheira, tido filhos, envelhecido. Enquanto vivia, via parentes mais velhos e outras pessoas morrerem, após vidas inteiras dentro do lugar. Um dia, contudo, já no último período de sua existência, uma curiosidade, que na verdade sempre tivera, ficou muito forte dentro dele. Começou a pensar, será que o mundo é só isso, uma caverna, não haverá nada além dela? Perguntou a pessoas que pensava serem mais sábias, essas responderam que seu questionamento era inútil, mas mais que isso, um pecado, que punha em dúvida toda a maneira tradicional de ser da sociedade da caverna.
      As crenças dos habitantes da caverna não satisfaziam mais o homem, não faziam dele alguém melhor. Por outro lado, sentia-se muito só, seu questionamento escandalizava as pessoas. Para poder viver com alguma paz, entendeu que era melhor guardar sua dúvida para si. Havia um corredor dentro da caverna que era proibido, as pessoas não sabiam bem o porquê, só sabiam que a tradição da sociedade da caverna dizia que tal corredor levava a um abismo de fogo. Isso, contudo, não o impediu de buscar uma resposta, de algum jeito ele sabia que a resposta para sua pergunta estava naquele corredor, assim resolveu que andaria por ele. Para isso teve que vencer o terrível medo que desde criança lhe colocaram sobre o corredor.
      No período de repouso dos habitantes, quando todos dormiam, ele começou a andar pelo corredor proibido. Cada dia percorria um pouco, mas sempre voltava antes das pessoas acordarem. Como cada vez ia mais longe, a volta tinha que ser mais rápida, para que as pessoas não soubessem de sua empreitada. Mas ele sentia algo estranho, quanto mais andava, mais forte e rejuvenescido sentia-se, dessa forma a volta mais célere não lhe cansava. Um dia, finalmente, ele percebeu que lá na frente do corredor havia uma luz, e quanto mais andava, mais claro o corredor ficava. Ele temeu o desconhecido, pensou, devo estar perto do abismo de fogo, serei queimado vivo, vou pagar por ter desobedecido a tradição religiosa do meu povo. 
      Sua curiosidade, entretanto, era mais forte que ele, e não era só uma questão de saber mais, por vaidade, nem algum tipo de revolta com a tradição da caverna, algo dentro e fora dele o chamava para saber mais, para ir até o fim do corredor proibido, para chegar à luz. Algo dentro e fora dele dizia qua no final não havia um abismo de fogo, mas uma vida melhor que a que havia na caverna. Então, num período de sono dos habitantes, ele enfim chegou ao final do corredor. Avistou uma porta aberta e do outro lado havia uma luz, mas ela não queimava, ao contrário, transmitia-lhe uma paz que nunca havia sentido, uma satisfação de felicidade, ainda que nada tivesse racionalizado ou verbalizado, a luz parecia ser a resposta que buscava.
      Na primeira vez que viu a luz já sentiu-se saciado e respondido, assim, passou algum tempo indo até lá, sentando-se no chão e simplesmente permanecendo calado, só contemplando a luz, para ele aquilo já era o bastante. Um dia, contudo, quando relaxou o suficiente, quando parou de tentar interpretar o que havia na luz de acordo com conhecimentos que tinha, com sua imaginação humana, quando enfim olhou com olhos espirituais, não físicos, ele viu. Havia seres com aparência humana na luz depois da porta, olhando para ele. Eram seres iluminados, com sorrisos serenos, como que só aguardando que ele tomasse uma iniciativa, que estivesse de fato preparado para saber se a vida era só aquela que havia dentro da pequena e escura caverna.
      Um dia ele tomou coragem e começou a conversar com os seres, mas mal ele formulava uma pergunta os seres já respondiam, como se adivinhassem suas palavras, como se lessem seus pensamentos. Com o tempo ele ia até à porta todas as noites, e adquiriu intimidade com os seres, reconhecia diferenças em suas vozes, eram homens, mulheres, idosos, mesmo crianças. Então, ele se sentiu preparado e disse, quero atravessar pela porta e ficar do outro lado para sempre. Os seres responderam, quando você morrer poderá passar por esta porta, todos que morrem passam por ela, contudo, como você pagou o preço do conhecimento, caminhou pelo corredor proibido, venceu preconceitos e tradições humanas, a passagem não vai surpreendê-lo, nem assusta-lo, será em paz. 
      Aquilo não foi o final, mas o início, agora ele sabia que a vida era bem mais que sobreviver naquela pequena e escura caverna. Mas ele também sabia que havia algo bom após a morte, não um abismo de fogo, mas um dia maravilhoso sob um Sol que ilumina, mas não queima, que revitaliza, que dá vida eterna. Não, ele não pôde contar sua experiência a todos, só para alguns, mas aprendeu quais as verdadeiras prioridades da vida e conseguiu pôr isso em prática. Agora não estava mais só, tinha a companhia dos seres da porta de luz, que o consolavam nas lutas da vida, que deram propósito mais alto à sua existência. Ele não podia falar aos semelhantes, mas quem quisesse poderia ver em suas ações alguém melhor, que via além da caverna.

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Reflexões sobre a parábola

      “Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos, foi arrebatado até o terceiro céu. Se isso foi no corpo ou fora do corpo, não sei; Deus o sabe. E sei que esse homem — se no corpo ou sem o corpo, não sei; Deus o sabe — foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras indizíveis, que homem nenhum tem permissão para repetir.” II Coríntios 12.2-4

1. O homem

      O ser humano, tenha ele a sexualidade que expressar neste mundo, tenha nascido onde for, com cultura, nível intelectual, poder financeiro e raça que tiver, tenha religião ou não, quem é ele? É um ser que nasce e morre uma vez para fazer uma única escolha e pela fé aceitar ou não o Cristo como salvador? Essa é a definição que o cristianismo do mundo dá ao ser humano. Mas outras religiões dizem diferentemente, dizem que o ser humano é espírito em evolução gradativa, processo que dura muito tempo e que existe várias vezes neste mundo e em outros mundos. Seja como for, há uma fase na existência humana de trevas, e isso não significa estar sem religião, sem Cristo, escravo de apetites do corpo. Há propósito nas trevas, só se valoriza a luz após vivencia-las. 

2. A sociedade

      É escola, hospital, chão de fábrica, plateia de teatro? É espaço e tempo de trabalho, com certeza. Trabalho físico? Sim, evoluímos moralmente sobrevivendo fisicamente, não só explorando o planeta para retirar dele comida e abrigo, mas para mantê-lo vivo e útil para gerações futuras. Conservar o planeta não é materialismo, mas prova de amor com filhos e demais descendentes. Por outro lado, evolução intelectual, ainda que ateus e céticos não admitam, está atrelada à evolução moral. Mesmo que no momento existam grupos extremistas e estúpidos que demonizam uns aos outros, crentes chamam cientistas de diabo, cientistas tratam crentes como loucos ignorantes, a harmonia de todos é destino inexorável da humanidade.

3. A caverna

      Ela não é restrição, é proteção. A maioria das pessoas não está preparada porque não quer, não quer porque não está preparada, assim Deus não chama muitos porque não podem ouvir. Deus abençoa grande parte da humanidade dentro de religiões. Religiões são revelações diretas de Deus? Não, são interpretações sobre revelações de Deus a homens de tempos e lugares específicos. Jesus é especial, único, altíssimo, em seus ensinos, ou pelo menos naquilo que a tradição cristã deste mundo deixou que ficasse registrado deles, há revelações para levarem os seres humanos para fora da caverna. Esses ensinos já têm quase dois mil anos, ainda assim as pessoas parecem sentirem-se cada vez mais acomodadas na pequena e escura caverna. 

4. O corredor

      Deus sempre disponibiliza o caminho, Jesus é o caminho, mesmo que quem o trilhe não saiba ou não denomine-o assim. Jesus hoje é um ser espiritual altíssimo, o verbo do amor divino que nos leva reto e direto a Deus. Por esse caminho Deus se comunica com o ser humano pelo seu Santo Espírito, é esse quem chama, revela, consola, cura, de acordo com os limites de cada ser. Sabe-se que se atingiu o limite quando não se é mais saciado pelas respostas que a sociedade da caverna dá, quando a tradição da caverna não faz mais da pessoa um ser humano melhor. Sente-se de caminhar pelo corredor proibido para ser melhor, não por curiosidade vaidosa ou rebeldia. É muito importante entender muito bem isso. 

5. O caminho

      O caminho é um, conduz ao Altíssimo. Corredores são muitos, são pessoais. Quando começa-se a trilhar um corredor não se sabe o que será achado, se move por fé. A obediência de seguir pelo corredor fortalece, mas também atemoriza, confia-se que Deus chama, superando o medo do abismo de fogo que a tradição da caverna diz haver no fim do corredor. Durante os últimos dois milênios muitos têm sido chamados para seguir por corredores, mas com medo da tradição da caverna esses têm se ocultado, ainda que muitas vezes achados, perseguidos e assassinados. Obedecer a voz de Jesus ainda tem um preço alto, e não é aquele que muitos cristãos acham pagar, esses só seguem cativos pela nova Roma pagã fantasiada de cristianismo. Trilhar um corredor é a maior aventura que pode-se experimentar neste mundo, se esse é o caminho para a porta.

6. A porta

      Conversão, iniciação, iluminação, elevação, conexão, o que é a porta? Quem pode mensurar a felicidade do que foi cego a vida inteira e então vê a luz do Sol pela primeira vez? Parece mentira, parece sonho, parece efeito da droga mais forte, mas na verdade é a realidade, o escuro da caverna é que é ilusão. Quem enxerga, ainda que de longe, os raios da luz da porta, apaixona-se como nunca tinha se apaixonado na vida, é puxado para cima pelo Espírito do Altíssimo, rejuvenesce, descobre o sentido mais elevado da existência, na caverna e fora dela, na vida e no além-morte. Quando se vê a porta pela primeira vez se quer fazer morada perto dela, ficar lá sentado, só olhando, que consoladores são os raios de luz que passam pela porta. Mas Deus nada faz pela metade, se pronto, pode-se continuar. 

7. A face espiritual

      Qual é a face do divino para você? Aquela que tua religião exibe em quadros e estátuas? Aquela que tua religião define em teologia e dogmas? Aquela que tua religião mostra nos rostos de homens “alterados”? Não darei uma palavra final nesta revelação, deixarei você e tua fé à vontade para explicarem, eu sei que obedeci, achei e vi. Senti-me como na parábola, como alguém que tivesse passado a vida numa caverna pequena e escura e enfim tivesse achado uma porta de luz, pela qual Deus fala sem que eu precise usar véu. Iluminação não é uma experiência fácil, tem um preço alto, principalmente de solidão. Mas quem quiser ver que veja em minha vida os frutos bons, práticos e perenes dessa experiência inefável. 

José Osório de Souza, 29/06/2023

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