1. Armadilhas do extremismo
“Não apaguem o Espírito. Não desprezem as profecias. Examinem todas as coisas, retenham o que é bom. Abstenham-se de toda forma de mal.” I Tessalonicenses 5.19-22
Seja na religião, seja na política, por ser zona de conforto, por dar a sensação de pertencimento a algo maior, onde não é preciso pensar, avaliar, escolher, se posicionar contra maiorias, extremismos criam armadilhas aos seus crentes. Uma posição polarizada responde e entrega solução a muitas coisas, mas não a tudo, as melhores soluções podem estar tanto num polo quanto no outro. Isso ocorre, porque ainda que extremistas se achem deuses, donos de verdades, são só homens arrogantes e ociosos. Deus acha graça deles, não com desdém ou cinismo, mas como pai olhando crianças brincarem, achando elas que seus brinquedos são ferramentas da realidade. Infelizmente, muitos se acham adultos sabidos sendo crianças.
Vendo esses debates que certos canais de televisão promovem atualmente, reunindo representantes de direita e de esquerda, às vezes um assunto é levantado, onde a solução mais lúcida posiciona-se num lado do espectro. Então, vemos os defensores do outro lado tecendo mirabolantes argumentações para defenderem seus posicionamentos sobre o assunto como o mais adequado. As pessoas simplesmente perdem a razoabilidade, defendem um ponto de vista, ainda que ele esteja errado, como se tivessem a obrigação de não mudarem de opinião, como se fossem deuses infalíveis. Na maior parte das vezes, nem é porque creem no que dizem, mas porque têm medo de contradizer líderes, e serem mal vistas por pares.
Desconforto notado é o da mídia, em sua maioria no Brasil de esquerda. Até colocam ambos os lados para serem ouvidos, mas claramente concordam com representante da esquerda, seja qual for o posicionamento desse e sobre qualquer assunto, e discordam do representante da direita. A mídia tenta ser, digamos assim, científica, racional, equilibrada, ouvindo ambos os lados, mas fica de saia curta quando um tema tem da direita uma resposta mais adequada. Se aqueles que se dizem representantes dos fatos, da realidade, e não de interpretações subjetivas, de pontos de vista pessoais, tendem para um lado sempre, fica difícil acreditar nesses, quando se dizem proprietários de critérios legítimos para identificação de fake news.
Se você quiser saber de que lado está o profissional da imprensa, qual é sua ideologia, que ele não abre mão, verifique para quem ele dá o benefício da dúvida. Se um suposto erro, uma provável inflação, for levantado, se for de alguém que está dentro da agenda da ideologia do repórter, ele dará o benefício da dúvida para defender o acusado, mas se for alguém do outro lado, do polo oposto, ele levantará todas as conjecturas possíveis para que o personagem esteja errado, seja infrator, seja culpado, não inocente. É dessa forma que a mídia de esquerda, que se levantou como paladino da justiça contra fake news, gera e promove um tipo sutil de fake news, talvez mais pernicioso que o escancarado.
2. Ninguém é dono da verdade
“Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus? Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo. Ele não veio somente com a água, mas com a água e com o sangue. E o Espírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade.” I João 5.5-6
Esquerda política defende seu modo de administração social e econômica da sociedade como melhor, de fato esse modo tem suas vantagens. A direita faz a mesma coisa com seu ponto de vista, e também, de fato, o modo dela tem vantagens. São modos perfeitos? Não, perfeito só Deus e Deus não está nem na direita, nem na esquerda política. Assim, aparece um ambiente como a Venezuela dos últimos anos. É de esquerda? É. Mas é ditadura. Limita direitos humanos, liberdade de imprensa, e empobrece o povo? Sim. A esquerda brasileira deve ficar do lado da Venezuela? Não, mas fica para não trair uma ideologia, ainda que com isso apoie uma realidade terrível, mas que cabe só ao povo venezuelano resolver ou não.
A direita política comete o mesmo engano, quando, por exemplo, o E.U.A. defendeu ditaduras militares na América latina. Sabemos que por trás da ideologia há grana, ainda que ingênuos achem que são puros crentes fiéis. A liderança de suas ideologias apoia mesmo países em caos da mesma ideologia porque há uma troca de favores financeiros entre pares. Sem Deus no centro ninguém é crente fiel sem segundas intenções, sem que haja dinheiro na jogada. Na religião a coisa é parecida, com um agravante, o nome de Deus é usado para valorizar uma crença e fazer temer os crentes. O cristianismo tradicional protestante responde todas as questões existenciais do ser humano, neste mundo e no outro? Não, principalmente ao ser humano atual.
Contudo, quando uma questão sem solução surge, as pessoas respondem, “Deus sabe, a nós cabe aceitar, não questionar, cabe-nos crer, não saber”. Por isso criou-se e são mantidos o diabo e o inferno, punição aos que balançam na fé diante de perguntas que não podem ser respondidas pelo que chamam de “Deus” e que conduz ao céu. Os extremos são confortáveis e satisfazem justamente por serem misteriosos, poços escuros sem fundo. Na luz não há extremo, nem mistério, nem trevas, na luz há liberdade, exatamente o que extremistas não têm. Na luz conhece-se a verdade mais alta de Deus, mas gradativamente, de acordo com a graça e a sabedoria do Senhor, que gentilmente nos leva a mudar de ideia e não ser presa de armadilhas.
Não há glamour no extremismo, não há qualquer espécie de excelência. Extremistas são perigosos e para todos, tanto para os mais distantes deles, quanto para os mais próximos. Em algum momento eles desejarão exclusividade de poder, são egoístas e não dividem posições, são loucos e verão em si mesmos nobreza e pureza que acreditam não existir nos outros, assim acham-se com mais direitos. É assim com direita, com esquerda, com religiosos, com ateus, não admitem nada acima deles, nem Deus, nem a ciência. Tolos os que fazem aliança com extremistas, que os subestimam, que dizem que são só mais radicais, mas que fortalecem um lado. Extremistas são mentirosos, e a maior mentira deles é dizerem-se donos da verdade.
3. Diferentes não são inimigos
“Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.” Romanos 10.12-13
O pior tipo de armadilha que o extremismo cria é colocação dos opostos como inimigos com os quais não há a menor possibilidade de se ter afinidade, quanto mais diálogo. Mas se isso já é ruim no campo político, é inadmissível no meio religioso cristão, teoricamente baseado no evangelho de amor do Cristo. Contudo, como em outras situações, a Bíblia pode ser usada para apoiar os desvios éticos mais absurdos, muitos elegem inimigos e os condenam ao inferno do diabo com base em textos sagrados, ou no que interpretam deles. O erro espiritual básico que se comete é crer que diferenças são eternas, que discordâncias existem para não serem resolvidas, isso limita intelectualmente porque impede de aprender com os outros, isso afasta, aprisiona.
O que incentiva muitos cristãos a serem extremistas é uma interpretação equivocada do absolutismo divino. Pensam muitos, “se no Deus todo-poderoso e dono de toda a verdade cremos, somos superiores a tudo, assim, podemos submeter todos às nossas crenças”. Ir contra esse raciocínio já nos coloca como crentes num Deus menor, portanto, enfraquecendo Deus e fortalecendo o diabo. Mas Deus é todo-poderoso porque submete todos com autoritarismo? Não, porque ama e atrai todos a sua luz. De novo muitos cristãos veem Deus conforme a ótica militar do antigo testamento, não pela visão de amor do evangelho. A verdade é que muitos creem num “Deus” falso, criado por homens para beneficiar homens, o Deus verdadeiro é diferente.
Muitos cristãos precisam ser libertos, não só das seitas protestantes, e nessa categoria incluo todas as denominações, mas também não lhes basta libertação do catolicismo, eles precisam ser libertos do judaísmo. Muitos evangélicos não percebem, mas estão extremamente ligados ao judaísmo, tanto ao das sinagogas que já existia no século I, quanto ao do Templo de Salomão, dos tempos do antigo testamento. Muitos cristãos precisam se converter ao cristianismo do Cristo, esse só tem um representante, o vivo Espírito Santo. Quase dois mil anos da vinda do Cristo, e o ser humano ainda está amarrado a uma espiritualidade ultrapassada. Sim, Deus tem abençoado a todos nesse retrocesso, mas na exceção do amor, não na regra.
Extremismo é a pior forma de idolatria, um simulacro de Deus criado por homens egocêntricos e megalomaníacos que não querem o Deus verdadeiro, mas querem ser a ideia equivocada que fazem de Deus. No altar dos extremistas cristãos está um ídolo arquitetado com doutrinas bíblicas, com características de Deus, com uma aparência que lembra a visão que muitos têm de Deus, mas é um ídolo vazio. Deus não pode ser simulado, não cabe em formas, nem físicas, nem ideológicas, Deus é Espírito e liberdade. Acha o verdadeiro Deus o que se humilha, que se cala, que abre mão de ser ouvido e aprovado no mundo, que busca o reino de Deus no céu, que ama, solta e a ninguém condena, afasta ou aprisiona.
4. Deus é o melhor lugar
"Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito." João 14.2
A verdade está em Deus, isso muitos dizem e de fato acontece. Mas que Deus ou que nível divino conhecemos porque podemos conhecer? Deus quer revelar-se por inteiro a todos, contudo, nem todos estão preparados para isso. Assim Deus mantém religiões para que cada um acesse-o de acordo com suas ferramentas espirituais, morais e intelectuais. Religião é construção humana. Verdade divina é conhecida em parte por muitos, ainda que tantos achem que a conhecem por inteiro. Quanto mais tenho certeza que sei menos sei e mais extremista sou.
Deus está nos extremos, na direita ou na esquerda, política ou religiosa? Integralmente não, como também não está integralmente no centro. A verdade divina, justa, santa, amorosa e atemporal, pode estar na direita, na esquerda assim como no centro. Cabe ao ser humano, com trabalho e humildade, temendo a Deus e respeitando ciência, verificar, orar e decidir o que funciona para ele. Agir assim é ter um compromisso pessoal com Deus e com a verdade, sem medo de opor-se a maiorias ou sem a carência de ter aprovação de grupos religiosos ou políticos.
Não condenemos quem precisa estar em extremos ou no centro, muitos fazem permutas, trocam o pior pelo menos ruim, trocam vícios e caos por esperança e sentido e podem achar nos extremos abrigo. Na casa de Deus há muitas moradas - eis interpretação diferente do versículo acima. Entendo que o melhor é estar no mais elevado nível espiritual que se pode estar, ainda que nisso se oponha a tantos, e ressalto, oposição exercida em humildade e silêncio. Quem está de fato em Deus aproxima-se da alta verdade, essa não toma partido exclusivista, de religião ou ciência, e segue em paz.
Usar religião para manipular politicamente as pessoas é uma das piores crueldades e covardias que o ser humano pode cometer. É cruel e covarde porque visa controlar fragilizados cheios de culpa e pobreza, que desejando soluções que não conseguem executar sozinhos, colocam confiança na fé em Deus e em homens, políticos e sacerdotes, que se dizem dirigidos por Deus. Mas é também sacrilégio e heresia porque alia a Deus coisas que ele não faz e nem diz. Poucos, contudo, são inocentes, cabe a cada um libertar-se dessa opressão e conectar-se ao Deus verdadeiro.
Já refleti outras vezes aqui sobre extremismo político e religioso e a relação parasítica entre política e religião. Penso que o mais importante é reconhecermos que política e religião são poderes deste mundo, não interferem na existência além mais elevada, ainda que religiões digam diferentemente e política atrelada à religião se proponha política melhor e aprovada por Deus. "Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!" (Jeremias 17.5). Reflitamos mais a respeito e nos posicionemos em Deus, o melhor lugar.