“Porquanto tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei em retiro alto, porque conheceu o meu nome. Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei. Farta-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação.” Salmos 91.14-16
Um homem vivia dentro de uma escura caverna, ele havia nascido lá, como seus parentes e conhecidos. Na caverna havia crescido, achado uma companheira, tido filhos, envelhecido. Enquanto vivia, via parentes mais velhos e outras pessoas morrerem, após vidas inteiras dentro do lugar. Um dia, contudo, já no último período de sua existência, uma curiosidade, que na verdade sempre tivera, ficou muito forte dentro dele. Começou a pensar, será que o mundo é só isso, uma caverna, não haverá nada além dela? Perguntou a pessoas que pensava serem mais sábias, essas responderam que seu questionamento era inútil, mas mais que isso, um pecado, que punha em dúvida toda a maneira tradicional de ser da sociedade da caverna.
As crenças dos habitantes da caverna não satisfaziam mais o homem, não faziam dele alguém melhor. Por outro lado, sentia-se muito só, seu questionamento escandalizava as pessoas. Para poder viver com alguma paz, entendeu que era melhor guardar sua dúvida para si. Havia um corredor dentro da caverna que era proibido, as pessoas não sabiam bem o porquê, só sabiam que a tradição da sociedade da caverna dizia que tal corredor levava a um abismo de fogo. Isso, contudo, não o impediu de buscar uma resposta, de algum jeito ele sabia que a resposta para sua pergunta estava naquele corredor, assim resolveu que andaria por ele. Para isso teve que vencer o terrível medo que desde criança lhe colocaram sobre o corredor.
No período de repouso dos habitantes, quando todos dormiam, ele começou a andar pelo corredor proibido. Cada dia percorria um pouco, mas sempre voltava antes das pessoas acordarem. Como cada vez ia mais longe, a volta tinha que ser mais rápida, para que as pessoas não soubessem de sua empreitada. Mas ele sentia algo estranho, quanto mais andava, mais forte e rejuvenescido sentia-se, dessa forma a volta mais célere não lhe cansava. Um dia, finalmente, ele percebeu que lá na frente do corredor havia uma luz, e quanto mais andava, mais claro o corredor ficava. Ele temeu o desconhecido, pensou, devo estar perto do abismo de fogo, serei queimado vivo, vou pagar por ter desobedecido a tradição religiosa do meu povo.
Sua curiosidade, entretanto, era mais forte que ele, e não era só uma questão de saber mais, por vaidade, nem algum tipo de revolta com a tradição da caverna, algo dentro e fora dele o chamava para saber mais, para ir até o fim do corredor proibido, para chegar à luz. Algo dentro e fora dele dizia qua no final não havia um abismo de fogo, mas uma vida melhor que a que havia na caverna. Então, num período de sono dos habitantes, ele enfim chegou ao final do corredor. Avistou uma porta aberta e do outro lado havia uma luz, mas ela não queimava, ao contrário, transmitia-lhe uma paz que nunca havia sentido, uma satisfação de felicidade, ainda que nada tivesse racionalizado ou verbalizado, a luz parecia ser a resposta que buscava.
Na primeira vez que viu a luz já sentiu-se saciado e respondido, assim, passou algum tempo indo até lá, sentando-se no chão e simplesmente permanecendo calado, só contemplando a luz, para ele aquilo já era o bastante. Um dia, contudo, quando relaxou o suficiente, quando parou de tentar interpretar o que havia na luz de acordo com conhecimentos que tinha, com sua imaginação humana, quando enfim olhou com olhos espirituais, não físicos, ele viu. Havia seres com aparência humana na luz depois da porta, olhando para ele. Eram seres iluminados, com sorrisos serenos, como que só aguardando que ele tomasse uma iniciativa, que estivesse de fato preparado para saber se a vida era só aquela que havia dentro da pequena e escura caverna.
Um dia ele tomou coragem e começou a conversar com os seres, mas mal ele formulava uma pergunta os seres já respondiam, como se adivinhassem suas palavras, como se lessem seus pensamentos. Com o tempo ele ia até à porta todas as noites, e adquiriu intimidade com os seres, reconhecia diferenças em suas vozes, eram homens, mulheres, idosos, mesmo crianças. Então, ele se sentiu preparado e disse, quero atravessar pela porta e ficar do outro lado para sempre. Os seres responderam, quando você morrer poderá passar por esta porta, todos que morrem passam por ela, contudo, como você pagou o preço do conhecimento, caminhou pelo corredor proibido, venceu preconceitos e tradições humanas, a passagem não vai surpreendê-lo, nem assusta-lo, será em paz.
Aquilo não foi o final, mas o início, agora ele sabia que a vida era bem mais que sobreviver naquela pequena e escura caverna. Mas ele também sabia que havia algo bom após a morte, não um abismo de fogo, mas um dia maravilhoso sob um Sol que ilumina, mas não queima, que revitaliza, que dá vida eterna. Não, ele não pôde contar sua experiência a todos, só para alguns, mas aprendeu quais as verdadeiras prioridades da vida e conseguiu pôr isso em prática. Agora não estava mais só, tinha a companhia dos seres da porta de luz, que o consolavam nas lutas da vida, que deram propósito mais alto à sua existência. Ele não podia falar aos semelhantes, mas quem quisesse poderia ver em suas ações alguém melhor, que via além da caverna.
José Osório de Souza, 29/06/2023