1. Fique na sua vocação
“Cada um fique na vocação em que foi chamado.” I Coríntios 7.20
Discrição não é só elegância social, pode ser uma disposição sábia e poderosa para proteção e eficiência espiritual. A primeira coisa que temos que entender é que ainda que estejamos fisicamente sozinhos, e viver neste mundo é, dentre outras coisas, administrar solidão, não estamos espiritualmente sozinhos, nunca. Usando termos da teologia cristã protestante, o Espírito Santo sempre nos fala e leva nossa voz a Deus, os anjos do Senhor nos assessoram de maneiras muitas vezes desconhecidas para nós, ainda que cruciais. Mas demônios ou espíritos malignos também estão ao nosso redor, aguardando brecha para terem suas vozes mais altas e influenciarem nossas vidas, seus espaços precisam de respeito, ainda que sem medo.
Seja como for, nossa mente está em contato com o plano espiritual em todo o tempo, influenciado-o e sendo influenciado por ele. A segunda coisa a entendermos, é que assim como nós interagimos com o plano espiritual, as outras pessoas também interagem, e ainda que as influências também se dividam entre boas e más, são diferentes para cada ser. Isso porque cada ser humano tem provas diferentes neste mundo, para que seja aperfeiçoado em vocações diferentes. O que é restrito para uns, é abrangente para outros, o que é tentação para uns, para outros nada representa, mas o que é dom e habilidade para uns, é diferente para outros, que terão dons e habilidades diferentes para propósitos divinos diferentes. Há Deus na diferença.
Se há diferenças na humanidade terrestre, de tantas formas, desde a origem geográfica, a cultura, a formação intelectual, o poder aquisitivo, a sexualidade, o entendimento religioso ou não, a humanidade espiritual eterna é dividida em famílias espirituais. Sabemos que somos da mesma família, não pela cor da pele, pela sexualidade, pela formação acadêmica ou pela grana, mas pela vocação espiritual. Mas se uma família espiritual recebe de Deus proteções específicas, ela também possui inimigos espirituais específicos, assim “anjos” e “demônios” específicos. Não gosto de usar a simbologia exército, mas pode ajudar nesse caso. Num mesmo exército uns são soldados, outros líderes, outros médicos, outros capelães.
Essa visão que a maioria dos cristãos possui, de uma eternidade dividida só entre salvos e condenados, na verdade é muita simplista. Deus chama trabalhadores para a sua obra, a obra é grande e diversa porque os seres humanos são em grande quantidade e diversidade. Usando outra simbologia, digamos que todos são chamados para serem médicos, mas com especialidades distintas, porque as doenças são diferentes. Uma família espiritual é chamada para ser otorrinolaringologista, outra para ser endocrinologista, outra para ser psiquiatra, outra para ser dermatologista. Nessa grande universidade da existência, Deus distribui provas diferentes para que pessoas sejam preparada em áreas distintas. Diversidade é maravilhosa.
2. Não invada com palavra
“O homem bom tira boas coisas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau do mau tesouro tira coisas más. Mas eu vos digo que de toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo. Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado.” Mateus 12.35-37
Como já avisei outras vezes, se você procura estudos bíblicos baseados numa interpretação protestante tradicional, se quer versículos bíblicos como base para doutrinas de forma explícita, nem sempre achará esse conteúdo aqui. Mesmo que muitas coisas existam na Bíblia, ainda que de forma mais implícita, a Bíblia foi escrita por homens antigos com religiosidades antigas. Algumas coisas que compartilho são frutos de oração e de experiências com os dons do Espírito Santo, esse, sim, tem coisas novas para nos ensinar, ainda que sejam só esclarecimentos aprofundados de ensinos antigos. Mas algo é óbvio, se Deus quisesse o mesmo para todos não haveria, para começo de conversa, tantas igrejas cristãs diferentes.
Voltemos ao tema desta reflexão: discrição pode ser uma disposição sábia e poderosa para proteção e eficiência espiritual, em outras palavras, há diferentes espaços espirituais, respeite-os. Para entendermos isso, temos que saber de um poderoso princípio espiritual, a palavra. Esse princípio está na Bíblia, em João 1, é tão importante que Jesus é chamado de verbo de Deus. Deus cria e transforma tudo pela palavra, uma palavra que ele diz não é só verbalização de pensamento, é um ato espiritual e material de geração. O texto bíblico inicial é uma exortação séria ao mau uso da palavra, essa tem poder e pode trazer consequências ruins, principalmente se estamos próximos a, ou em, espaços espirituais que não são os nossos.
Sejamos práticos: fale baixo, não tente se impor pelo tom alto de voz, ainda que tenha razão e esteja usando argumentos legítimos, assim não invadirá território que não é seu. Falar de qualquer jeito pode suscitar polêmica, provocar oponentes, causar inveja, gerar guerra que não é para você lutar, porque Deus não mandou, e portanto, ser em algum momento, derrotado. O jeito certo de falar é o humilde, santo e amoroso, nesse modo muitas vezes entenderemos que o melhor é nos calarmos. O ambiente em que temos mais liberdade é nosso lar, já nas ruas da cidade, o território espiritual é quase terra de ninguém, os limites são os de cada indivíduo. Mas no ambiente de serviço cada departamento pertence a um líder determinado.
Somos responsáveis e portanto temos algum direito pelo território pelo qual oramos, mas ainda que as pessoas não sejam cristãs, não orem e nem creiam em plano espiritual, elas têm direitos a territórios, anjos e demônios interagem com elas, sabendo elas ou não. A melhor guerra é a que não entramos, se entrarmos tenhamos certeza que recebemos ordem de Deus para isso. Ainda que tenhamos vida com Deus, de consagração e de oração, seremos derrotados entrando tolamente em conflito desnecessário, medindo forças com oponentes que estão em territórios e com direitos que Deus, o mesmo que seguimos, lhes deu. Infelizmente há muito crente pedindo posse de espaço que nunca será seu, assim está sempre derrotado, desgastando-se inutilmente.
3. Uma parte a cada um
“E sucedeu depois da morte de Moisés, servo do Senhor, que o Senhor falou a Josué, filho de Num, servo de Moisés, dizendo: Moisés, meu servo, é morto; levanta-te, pois, agora, passa este Jordão, tu e todo este povo, à terra que eu dou aos filhos de Israel.
Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo tenho dado, como eu disse a Moisés. Desde o deserto e do Líbano, até ao grande rio, o rio Eufrates, toda a terra dos heteus, e até o grande mar para o poente do sol, será o vosso termo.”
Josué 1.1-4
Quando dizemos que espaços espirituais devem ser respeitados, muitos podem dizer: “meu Deus é poderoso, dono de tudo, em seu nome eu posso tomar posse de muita coisa”. De muita coisa, sim, mas não de tudo, nem Israel, que a tradição judaico-cristã ensina que é um povo especialmente escolhido por Deus para testemunhá-lo no mundo, recebeu toda a Terra, Deus delimitou de forma clara seus termos. Mas o que precisamos entender é que não é só uma questão de limites geográficos físicos, o planeta está dividido em áreas espirituais. Isso não significa que todos obedecem essa territorialização espiritual, há muitos ocupando espaços que não são deles, e outros, por covardia ou timidez, não conquistando o que é deles.
“Cristo é Senhor desta cidade”. Vemos em muitas cidades placas assim, autorizadas pela prefeitura, depois que vereadores e outras lideranças municipais cristãs as solicitaram, acreditando esses, sinceramente, que pela fé podem proteger e até possuir espiritualmente um município inteiro. Deus é Senhor da cidade, mas não significa que evangélicos, católicos, espíritas, muçulmanos ou outros religiosos sejam, cada grupo possui uma parte, que na verdade é administrada espiritualmente nem por religiões, mas por indivíduos por fé comum, ou comuns por não terem fé. Por outro lado, entrar em guerra espiritual por território que Deus não deu, pode pôr o combatente em sérios riscos, ainda que use o nome de Deus.
Há algo que muitos do povo protestante e evangélico perderam, e vou deixar católicos fora desta vez, é a humildade. Arrogando serem proprietários exclusivos da salvação e da verdade, se acham superiores. Lembro, que conforme a tradição teológica desses mesmos “crentes”, Lúcifer caiu do céu por arrogar ser igual a Deus. Neste Brasil, já vi cantora gospel começar humilde e no final liderar campanha para que o país fosse de sua religião. “Mas Jesus não mandou que pregássemos o evangelho a toda criatura e que só fé nele salva?”, sim, mas com humildade, com respeito, com paciência, com amor, não com intolerância e arrogância. Se vivemos, nossas obras falam por si, não precisamos tentar convencer por palavras.
Mas como já falamos tanto aqui, o principal erro que muitos evangélicos e protestantes cometem, é interpretar as prioridades divinas para suas vidas, como aquelas registradas no antigo testamento para a nação física de Israel. A Bíblia deve ser seguida com sabedoria, a prioridade é o exemplo de vida de Jesus, depois os muitos ensinos sobre células comunitárias cristãs registrados por Paulo e pelos apóstolos. No antigo testamento as palavras de Davi e Salomão podem ser atemporais, consolo sempre, mas o resto, a parte histórica, deve ser lido com muitos filtros. Não se escandalize agora, mas muito dos textos do antigo testamento (e até do novo), referem-se à cultura e religiosidade antigas, não se aplicam mais para nós hoje.
José Osório de Souza, 13/06/2023