28/03/26

Vencidos pelo tédio

      “Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito. Aquilo que é torto não se pode endireitar; aquilo que falta não se pode calcular. 
      Falei eu com o meu coração, dizendo: Eis que eu me engrandeci, e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim em Jerusalém; e o meu coração contemplou abundantemente a sabedoria e o conhecimento. 
      E apliquei o meu coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras, e vim a saber que também isto era aflição de espírito. Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor.” 
Eclesiastes 1.14-18

      A ciência tem desempenhado bem seu trabalho, mas a fé não tem, infelizmente. A ciência tem entregue ao ser humano e ao planeta melhor qualidade de vida, por exemplo nos computadores, nos remédios, nos transportes, na comunicação, na ecologia, enquanto a fé insiste em ver o universo como via o ser humano antigo, do tempo que havia muito pouco de ciência. Deus não muda, o homem, sim, a prova disso é que o homem desenvolveu a ciência, o conhecer do mundo material exterior e de si mesmo. Contudo, quase num estado esquizofrênico, as pessoas veem o mundo e a vida de um jeito, quando estão dentro de templos religiosos, e de outro, quando estão fora deles, e de alguma forma maluca, conseguem funcionar com tudo isso. 
      Se a ciência prova que o ser humano é resultado de evolução, que iniciou-se em seres unicelulares e chegou, pelo menos até o momento, no homo sapiens, que o homem não foi criado, com a Terra, a natureza, os animais e outros astros, em seis dias, temos que mudar nossa forma de crer. Se filosofia, antropologia, psicologia têm nos levado a raciocinar sobre as diferenças humanas no planeta, não podemos medir todo o mundo com a régua do constantinismo, crendo que só há salvação numa crença, e fora dela, condenação eterna. Isso não tira Deus da equação cósmica, não rebaixa a posição espiritual altíssima e exclusiva de Jesus, nem cala a voz do Santo Espírito como único representante oficial de Deus na Terra. 
      O medo de assumir a verdade tem enlouquecido o cristianismo do mundo, ou constantinismo, nome talvez mais propício, visto que o que se chama cristianismo no mundo tem mais a ver com o imperador Constantino que com Cristo. É verdade porque está claro que o tal cristianismo limitado não está mais funcionando, não abraça todos em amor, mas se uma verdade basta, a mentira precisa de novas mentiras para manter-se. Assim tantas teorias de conspiração sobre fim do mundo, anticristo, como demonização do progressismo e globalismo, que nada mais são que consequências naturais do progresso. Se de fato o mundo caminha para um globalismo progressista é outra coisa, pode ser só encantamento de um momento. 
      Algo que “profetas” que se dizem com embasamento científico para preverem o futuro, não levam em conta, é o tédio humano, a facilidade que as pessoas têm em não sentirem prazer em algo, após prova-lo ao extremo, principalmente quando não têm experiência espiritual com o Deus genuíno. Muitas coisas são descartadas, não por serem racionalmente inúteis, mas por perderem a graça. Vivemos um momento de encantamento com a liberdade das diferenças, nada errado há nisso, é efeito natural de séculos de racismo, sexismo, xenofobia e inferiorização de quem não é homem-hétero-branco-rico-cristão. Mas será que tais bandeiras sobreviverão tendo oposição do cristianismo conservador e defesa do progressismo ateu? 
      Braço de ferro estúpido, principalmente no lado dos que se dizem seguidores do amor de Jesus. À tese do tédio humano, alguns podem responder, “liberdade nunca perderá prazer e prioridade”. Depende, se de fato for liberdade, mas o que ocorre atualmente é só a troca de carcereiro. Religião externa, o ser humano tem trocado pela internet, se antes eram sacerdotes em templos que diziam ao homem o que era melhor para ele, hoje são os algoritmos de buscadores e redes sociais. Compramos e queremos ser o que pop-ups mostram, o que imagens e vídeos vendem, estética e valores de digital influencers. Muitos disseram matar Deus e criaram um novo deus, na palma da mão pela internet das pessoas e das coisas em seus celulares. 
      Ninguém se iluda, achando que sem Deus pode ser livre, e na verdade em Deus se é livre, não por se viver num mundo com liberdade, mas por não se dar à liberdade no mundo tanta importância. Sem Deus o homem entedia-se com tudo, sempre quer novidades, vício para trocar por outro, nisso cega-se e não percebe que não tem controle, mas é controlado. O futuro? O homem entenderá que tem o que queria e que ainda não é feliz, haverá mais justiça social, vidas mais longevas e sadias, mais tempo para arte e lazer, menos intolerância, guerra, violência, como profetizam escritores utópicos de ficção-científica. Mas ainda assim haverá tédio, e mais profundo, com menos remédios, assim com mais depressão, se não houver o verdadeiro Deus.

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