28/06/26

Convivendo com o silêncio

      “Uma coisa me foi trazida em segredo; e os meus ouvidos perceberam um sussurro dela. Entre pensamentos vindos de visões da noite, quando cai sobre os homens o sono profundo, sobrevieram-me o espanto e o tremor, e todos os meus ossos estremeceram. 
      Então um espírito passou por diante de mim; fez-me arrepiar os cabelos da minha carne. Parou ele, porém não conheci a sua feição; um vulto estava diante dos meus olhos; houve silêncio, e ouvi uma voz que dizia: seria porventura o homem mais justo do que Deus? Seria porventura o homem mais puro do que o seu Criador?
  Jó 4.12-17

      Como pianista profissional, meu ofício é musicalizar ambientes, oferecer um som agradável enquanto as pessoas desfrutam de refeição e lazer. Na maioria das vezes não sou recrutado para fazer show, assim as pessoas não estão lá para me assistir, ainda assim muitos estão atentos à música, elegantemente a apreciam e agradecem por ela. Outros, porém, simplesmente ignoram que há um pianista executando ao vivo um piano de cauda, se sentem algo, não manifestam. Contudo, presencio outras reações, alguns não sabem conviver com o próprio silêncio, nada dizem nem sabem ouvir o que os outros dizem (ou tocam). Como convivemos com nosso silêncio, ouvimos ou criticamos tentando calar a voz interior que revela quem somos? 
      Paz é algo que se constrói com humildade, santidade e amor, domando culpas, mágoas e medos, então retendo uma tranquilidade interior que nos permite ver os outros com generosidade e misericórdia. Quem não tem paz e bem no coração terá dificuldades para achar isso fora de si, e muitos seguirão pelo caminho mais fácil, reagirão com agressividade. Quem não se resolve, resolverá errado tudo o mais, quem não tem Deus, tem o “diabo”, esse pode manifestar-se de muitas maneiras distintas. Hoje a grande maioria das pessoas nada faz sem música, pelo celular, pela Alexa, no carro, em shoppings, sempre há música. Mas que tipo de música há? Na maioria das vezes para entorpecer o corpo e deixar fugir os pensamentos. 
      Dificilmente queremos letras que nos façam refletir mais profundamente sobre nós e sobre tudo o mais. Ritmo e harmonia preferimos que sejam simples, qualquer sofisticação instrumental, presentes por exemplo em música erudita e no jazz, dá trabalho a quem não quer se dar ao trabalho de compreender a mecânica do universo e se harmonizar com ela. Como músico, com limites, mas que leva seu ofício a sério, prezando por música de qualidade, sinto na pele o público atual, em sua maioria desacostumado a letras, harmonias, melodias e ritmos mais trabalhados. Qualidade hoje entedia a muitos, ao invés de desafiar a aprender e crescer. Na arte musical, infelizmente, posso testemunhar que as coisas vão de mal a pior, enfim, coisas de fim de era
      Sobre a passagem bíblica acima, quando não faço estudo bíblico, que é o caso deste texto, mas reflito de forma filosófica sobre a vida, tento postar no início versículos que tenham algo a ver com a reflexão, neste caso busquei a palavra silêncio. Contudo, me assustou a passagem de Jó, o que levou o amigo de Jó a ficar em silêncio, uma experiência realmente espiritual, daquelas que o cristianismo protestante pouca relevância dá, quando não considera apócrifa. “Um espírito passou por diante de mim, fez-me arrepiar os cabelos, não conheci a sua feição, um vulto estava diante dos meus olhos”. Muitos não têm experiências espirituais profundas porque fogem do próprio silêncio, querem falar e criticar, não ouvir, seja música, seja Deus. 

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