12/03/21

Lucidez para achar coerência

      “Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” Colossenses 1.10

      Andar com o Deus verdadeiro é andar na luz e andar na luz é andar com lucidez, procurando e achando coerência entre crença e prática, se isso não ocorrer cairemos no vício de sermos meros religiosos. Há quanto tempo você é cristão? Há quanto tempo frequenta uma igreja evangélica? Você tem experimentado mudanças em tua vida? Tem se transformado num ser humano melhor, como cidadão, como profissional, como esposo, como pai, como filho, como irmão, como homem ou como mulher? Ou até mudou no início, se adaptou à doutrina básica cristã, mas ainda guarda no coração questões não solucionadas, e estão assim, não por não terem solução, mas porque você simplesmente tem tentado não pensar muito nelas? 
      O tema desta reflexão foi bastante pensado na série “Reavaliemos nossas crenças”, mas vai aqui outro apelo, de alguém que caminha com Deus desde que adquiriu consciência das relevâncias espiritualidade e pecado, isso já tem uns cinquenta anos. Meu caminho não foi fácil, vencer vícios, fraquezas e feridas afetivas demorou e custou um preço caro, mas por algum motivo Deus viu boa sinceridade no meu coração, juntou isso a uma misericórdia sua sem limites, e me fez chegar a um momento atual de vitória e felicidade em todas as áreas de minha vida. Nesse caminho muitos até hoje não me perdoaram e ainda me veem como fui, não como sou, mas o que importa é que achei paz em Deus, cura verdadeira e profunda.
      Mas preciso ser honesto, meu processo de transformação ocorreu porque provei o evangelho genuíno de Jesus, foi uma experiência direta e pessoal com o Senhor, nas mudanças mais importantes igrejas e cristãos pouco se envolveram. Fui bênção nas igrejas pelas quais passei, mas quando estava bem, quando não estava foi só o Senhor que me entendeu e meu ajudou. Não digo isso com mágoa no coração, acreditem, hoje sei que a maioria das pessoas que fazia e faz parte das igrejas em que participei também precisava de ajuda, e algumas mais do que eu. A diferença entre muitas delas e eu é que se acomodaram, aceitaram suas condições de não resolvidas e se transformaram só em religiosos, até bons religiosos, mas apenas isso.
      É preciso lucidez para procurarmos coerência entre o que cremos e o que praticamos, e se não acharmos entendermos que algo está errado, em nós ou naquilo que aprendemos nas igrejas. Deus nunca está errado, o que pode estar errado é o que achamos ser Deus e não é, não podemos desistir, Deus não desiste de nós, o que começou em nossas vidas terminará, desde que permitamos que ele trabalhe. Permitimos obedecendo sua voz, que muitas vezes não está naquilo que homens em igrejas nos dizem, mas repito, não fique magoado com homens em igrejas, cada um dará satisfação pelo que recebeu de Deus e pelo que fez com isso para abençoar a si e aos outros, importa entendermos que Deus usa igrejas, mas igrejas não são Deus. 

11/03/21

Paciência no evangelismo

      “Ora o Senhor encaminhe os vossos corações no amor de Deus, e na paciência de Cristo.” II Tessalonicenses 3.5

      Quem que acertar, sempre acha o Deus verdadeiro, ainda que comece em religiões com outros fins, ou que entenda errado o que é o evangelho, no tempo certo encontrará e entenderá o caminho que conduz diretamente ao altíssimo. Precisamos entender que apesar da maioria das religiões entregarem óticas de espiritualidade e de ensinarem o bem de alguma maneira, nem todas visam o Deus altíssimo de forma objetiva, e isso é a verdade que o cristianismo genuíno e original ensina e que muitas pessoas, de outras religiões, não aceitam. Muita gente não conhece de fato suas crenças, e se conhecem não assumem. 
      Algumas religiões ensinam contato com o mundo espiritual através de entidades, de anjos, de poderes da natureza, outras através de espíritos de homens desencarnados, a religião cristã mais poderosa do mundo ensina que seres humanos mortos, autenticados por ela como “santos”, podem desempenhar papéis de mediadores. De maneira alguma quero contestar a sinceridade das pessoas, não desejo isso e muito menos posso, Deus conhece a todos e ouve muitos, se há verdade na busca, quem quer a Deus sempre o achará, ainda que comece em caminhos indiretos, mais longos, e que no final não conduzam a Deus. 
      Espiritualidade verdadeira é gradativa e quem a trilha não conseguirá ficar numa única religião por toda a vida, desejará saber e praticar mais à medida que é confrontado pela luz. Sim, o mais importante é saber que o caminho reto, direto e suficiente para Deus é Jesus, quem entende isso não será enganado, nem perderá tempo. Contudo, mesmo os que não querem acertar, que não querem abrir mão de vaidades, de prazeres egoístas, de culpas, buscam religiões, inclusive o cristianismo, por quê? Porque todos precisam de Deus, têm esse desejo latente em suas almas, ainda que não queiram pagar o preço para conhecê-lo.
      O que busca religião, mas no fundo não quer mudar de vida, procurará nas religiões não por Deus, mas por desculpas para continuar como está. Esse não assumirá pecados, não se humilhará diante do Senhor, esse, ainda que nas religiões cristãs, se distanciará mais e mais do Altíssimo. Mas o pior é que esse é presa fácil para espíritos rebeldes, inimigos de Deus, esse piorará mesmo praticando com esforço boas religiões. Por quê? Porque não quer acertar sua vida e não quer fazer isso através do Deus verdadeiro. Ser religioso não significa ser espiritual, não a espiritualidade mais alta da luz, da verdade e do amor de Deus. 
      Cristãos, tenham paciência no evangelismo, não saiam por aí atacando religiões, destruindo o desejo sincero de alguém de conhecer a verdade, antes amemos as pessoas, respeitando-as. Se Deus usa toda uma vida para mudar as pessoas, para ensiná-las, quem somos nós para querer mudá-las num instante? Sim, alguns podem ser transformados num instante, mas funciona dessa maneira se a pessoa já estiver pronta por Deus para isso. É preciso discernimento espiritual para saber como abordar cada um, afinal não estamos fazendo um trabalho nosso, mas de Deus, se é queremos conduzir almas ao Senhor, não só à igreja.

10/03/21

O amor de Deus

      “Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo, conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna.” Judas 1.20-21

      Deus é amor e a maior prova disso é que todos os seres são atraídos para a posição espiritual mais alta, de luz, de paz, de bem, de santidade, por esse amor. Inferno é opor-se a essa atração, é negar esse amor, é preferir estar longe de Deus. Longe de Deus existem trevas, trevas é a posição espiritual onde não se está protegido pelo amor de Deus, mas entregue às vontades de seres espirituais rebeldes que querem ser deuses e não obedecem a Deus, ainda que nada façam sem sua autorização.
      Deus é sempre amor, assim aqueles que sofrem sozinhos sofrem porque se afastam de Deus, por escolha própria, não porque o amor de Deus  por eles tenha deixado de existir. Já os que sofrem em Deus sofrem para serem seres melhores, sofrem suportados por Deus, e sofrem com justiça. O amor de Deus é justo, assim se manifesta aos que amam a justiça e se distancia dos que vivem de maneira irresponsável, aqueles que amam a si mesmos e buscando só prazeres físicos e egoístas. 
      Jesus é a revelação do puro, pleno e poderoso amor de Deus, nada mais e nenhum outro ser, que viveu, vive ou viverá no plano físico, ou que se encontra nas regiões espirituais celestes, atinge a excelência e a posição de Cristo. Só temos acesso ao amor de Deus por Jesus pois só por Jesus recebemos o Espírito Santo que nos permite orar ao Altíssimo e receber dele toda espécie de bênção, seja material ou espiritual, neste mundo ou no outro. Jesus é Deus e Deus é todo amor. 
      Se somos um com o pai de amor somos amor, assim tudo o que fazemos, falamos, sentimos ou desejamos precisa ser pelo e no puro, pleno e poderoso amor de Deus, quem não ama não está em Deus. Pecar é se colocar fora do amor de Deus, quem ama não quebra alianças, sejam afetivas ou materiais. Quem ama não adultera, não rouba, não mata, não odeia, não mente, não inveja, não tem ciúmes, não busca seus interesses, mas os interesses do Deus que a todos ama sem acepção.
      Sempre que buscamos a Deus com humildade achamos o amor de Deus e sempre que achamos queremos compartilhá-lo, do mesmo modo que recebemos, gratuitamente. Amor verdadeiro não se vende ou troca, se oferece de graça. Quem diz que conhece a Deus e o segue, mas não consegue amar está longe de Deus, precisando se acertar com o Altíssimo, confessar e deixar pecados, experimentar de fato o amor do Senhor. Só se consegue amar os outros e a si mesmo quem ama a Deus.

09/03/21

Levai as cargas uns dos outros

      “Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão; olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo. Porque, se alguém cuida ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Mas prove cada um a sua própria obra, e terá glória só em si mesmo, e não noutro. Porque cada qual levará a sua própria carga.” Gálatas 6.1-5

      Os versículos dois e o cinco referem-se a cargas, mas dizendo coisas que numa leitura rápida parecem contraditórias, um orienta-nos a levar as cargas dos outros, o outro diz que cada um levará só sua própria carga. Na verdade as cargas citadas são diferentes nos dois versículos, por isso devem ser vistas de maneiras distintas, no versículo dois as cargas se referem à vergonha pelos pecados e no cinco à glória pelas boas obras. O certo é que a vida neste mundo é construída, para o bem ou para o mal, com trabalho, todo trabalho tem seu peso, que requer de nós esforço para ser conduzido, quem nada faz, nada colhe, nada conquista, nada cresce, e cresce-se também com erros cometidos e assumidos. 
      Levar as cargas dos outros é não realçar os erros dos outros, o que podemos fazer para crescer não fazendo o bem, mas promovendo o mal alheio, e como temos a tendência de nos alegrar com o pecado dos outros, como gostamos de falar sobre isso. Mas o pecado de um é vergonha para todos, algumas religiões espiritualistas dizem isso, pelo fato de todos nós termos espíritos que vieram do mesmo pai dos espíritos, Deus, assim se na carne irmãos têm os mesmos laços de sangue que nós, um número pequeno de pessoas, no espírito todos os seres humanos têm conosco laços espirituais originais. Contudo, o humilde e que foi perdoado, protege o que peca da mesma maneira que deseja ser protegido. 
      O que leva a carga do outro sem condená-lo se faz homem, não juiz, esse entendeu o principal motivo de viver encarnado neste mundo, que é morrer para si, perder para ganhar, exaltar ao Senhor, não a si mesmo, mesmo diante da fraqueza alheia. Ninguém é melhor que ninguém, vaidade é o pecado mais diabólico que existe, e crescer com a queda do outro é algo cruel, infantil, baixo. Isso quer dizer que não temos o direito de nos sentirmos bem com nossos acertos, que não podemos nos gloriar por sermos bons? Não, mas nossa glória deve ser em nós mesmos, e não sobre o outro, isso significa sermos discretos, guardarmos a satisfação pela boa obra no coração, sem usá-la para diminuir ninguém. 

08/03/21

Caminhe com humildade

      “Os que semeiam em lágrimas segarão com alegria. Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos.” Salmos 126.5-6

      Quando a vida nos leva para um caminho de quebrantamento, que pode nos colocar em solidão e mesmo em vergonha, ainda que seja injusta, devemos ser gratos a Deus. Em situações assim o Senhor está nos tratando como pai de amor que tem um grande carinho por seus filhos e os está corrigindo para que sejam melhores. Infelizmente já ouvi de alguém que estava passando uma grande tribulação, com relação a outros que o tratavam de maneira dura, o seguinte, “aproveitem enquanto estou por baixo, quando eu me levantar darei o troco”, quem pensa assim não entendeu nada da vida, de si mesmo, de Deus. A humilhação existe para que nos levantemos humildes, se quisermos nos levantar altivos e orgulhosos nossa humilhação não terá fim e nossa vida piorará mais e mais, isso pode conduzir-nos a fins trágicos...
      Caminhemos em humildade, ouvindo mais que falando, deixando que o tolo diga a última palavra, relevando o fato do arrogante se sentir acima de nós, e ajamos assim sem qualquer pretenção de vingança, entendendo que se estamos passando por um momento de quebrantamento é porque temos que mudar de maneira extrema nossas referências de vida. Aquele que de fato se deixa ser quebrado por Deus nunca mais se erguerá do mesmo jeito, aliás, nunca mais se erguerá, mas permitirá que Deus o levante, quando, se e como Deus quiser. Chorar é melhor que rir, quando choramos em Deus e pelo Espírito Santo, calar é melhor que dizer, quando deixamos que Deus nos defenda e mostre na realidade de nossas vidas que ele de fato cuida de nós, esperar é melhor que fazer, quando isso deixa que Deus faça e do seu jeito, para glorificar a ele, não a nós, o que permanece humilde nunca será novamente humilhado. 

07/03/21

Interagindo com as águas (2/2)

      “E mostrou-me o rio puro da água da vida, claro como cristal, que procedia do trono de Deus e do Cordeiro.” Apocalipse 22.1

       Nossa interação com as águas sobe de nível quando usamos ferramentas que nos ajudam a ter mais autonomia e facilidade para nos mover nelas. Nesta segunda parte da reflexão que comparamos as águas com o mundo espiritual, as ferramentas são os dons do Espírito, que compararemos ao uso de planchas e barcos para nos movermos nas águas. Usando planchas podemos nos equilibrar sobre a superfície, sem afundar, gastando menos energia que nadando e com a ajuda do vento nos movimentarmos. Essa experiência pode parecer entregar uma interação menor com as águas, mas não é, ela nos permite não só sentir de forma passiva a água em nosso ser, como ocorre quando nadamos, mas nos movermos sobre a água de forma ativa. Entenda ativa com saber o que está fazendo, de onde veio, para onde quer ir, para, chegando num lugar, exercer um objetivo específico.
      Surfar necessita de uma ferramenta, uma plancha, que fica entre nós e a água, não são todos que têm essa ferramenta ou sabem manejá-la. São necessárias também habilidade e confiança para que acreditemos que podemos nos equilibrar e nos mover com uma plancha. O uso da plancha, contudo, tem um limite, funciona melhor quando vamos em direção à praia, assim surfar sempre nos leva para longe da água e em direção à terra. Se quisermos ter mais experiências com a água precisaremos ter a consciência de que quando chegarmos à praia teremos que voltar e recomeçar o processo. entretanto, apesar de limitado, o uso da plancha pode ser mais seguro para alguns com medo de águas mais fundas. 
      Usar uma plancha é como usar os dons do Espírito em momentos aleatórios, em cultos coletivos e especiais, quando toda a igreja está vivenciando um derramar da unção, essa experiência é poderosa, porém curta, e, digamos assim, primária. Existem ferramentas e formas mais maduras de usá-las, e continuando em nossa simbologia, como um barco a velas. Essa ferramenta usa o vento, mas não para voltar à terra, mas para seguir em direção às águas mais distantes e profundas, o que nos permite ter experiências mais exclusivas e pessoais com a água. Para isso, contudo, é necessário ainda mais habilidade com uma ferramenta mais sofisticada, saber direcionar as velas, conhecer os ventos, não ter medo do desconhecido. 
      Com um barco, mesmo o descanso, pode ser feito sobre as águas, e os que levarem consigo suprimentos adequados poderão passar muito tempo interagindo com as águas, sendo renovados por elas, sem deixá-las. Ter um barco, contudo, não é para qualquer um, um barco custa um preço, e quanto mais sofisticado, quanto mais qualidade de vida sobre as águas ele proporcionar, mais caro será. Muitos cristãos são sinceros e consagrados, mas ainda não aprenderam a usar ferramentas espirituais, contam só com as próprias forças, e o batismo no Espírito Santo, que alguns dão tanto valor, não é o fim, mas só uma iniciação para as ferramentas espirituais que Deus pode dar ao homem para que vivenciem a vida eterna. 
      Nosso barco espiritual tem um preço, ele é adquirido com tempo e esforço para nos aperfeiçoarmos espiritualmente, com oração e adoração, assim como intelectualmente, estudando sobre teologia e espiritualidade, e acredite, existe muita coisa interessante escrita que se muitos lessem seriam libertados de tantos preconceitos e sensos comuns. Mas não basta falar diretamente com Deus e conhecer as experiências de outros seres humanos, é preciso praticar, só a prática conduz à evolução, nos leva a sair de um nível e desejar o próximo, caso contrário ficaremos estacionados. Quem tem um barco e cuida dele desejará sempre novas águas, viagens mais longas e por regiões cada vez mais desconhecidas e instigantes. 
      As experiências dessa analogia não são mutuamente exclusivas, e uma não é melhor que a outra, o cristão maduro aprenderá a vivenciar todas, cada uma no momento adequado, de maneira que não se prenda por tempo demasiado à terra seca, por mais tentadora que seja a realidade material do mundo, ou por mais que a “terra” pareça ser a verdade e as águas espirituais só fantasia ou mesmo loucura. A verdadeira espiritualidade é gradativa e o próprio Espírito Santo sempre nos atrai para mais e mais para dentro de suas águas. Estacionar pode ser risco de vida. Qual o seu nível de interação com as águas do Espírito de Deus? Só molha os pés e já saí correndo? Você tem medo do mundo espiritual ou você é atraído por ele? Muitas vezes somos atraídos ainda que tenhamos medo, e isso é bom, só nos mostra que temos que seguir mas com cuidado, temendo a Deus. 
      Tem muitos que se contentam em se sentarem na praia e ficarem admirando o mar, o acham lindo, sentem-se revigorados só em ficarem horas olhando para ele, porém não passam disso, nunca interagem de fato com o mar. Sabe o que acontece com quem fica muito tempo debaixo do Sol longe da água? É queimado. As águas do Espírito não são salgados nem sujas, são doces, puras e frescas, são o único alimento que pode nos dar vida eterna e nos proteger de perigos fumegantes, assim, interaja com elas. Não precisamos comprar um barco caro logo de cara, mas é preciso dar o primeiro passo, nos submergimos nas águas espirituais e sentirmos a renovação e o refrigério que só Espírito Santo pode dar, depois é só obedecer ao chamado pessoal de Deus.

Reflexão dividida em duas partes,
leia na postagem de ontem a 1ª parte.
José Osório de Souza, 24/11/2020

06/03/21

Interagindo com as águas (1/2)

      “E saiu aquele homem para o oriente, tendo na mão um cordel de medir; e mediu mil côvados, e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos artelhos. E mediu mais mil côvados, e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos joelhos; e outra vez mediu mil, e me fez passar pelas águas que me davam pelos lombos. E mediu mais mil, e era um rio, que eu não podia atravessar, porque as águas eram profundas, águas que se deviam passar a nado, rio pelo qual não se podia passar.” Ezequiel 47.3-5

      Submergir, nadar, surfar ou navegar? Como interagir com as águas do mundo espiritual? Que níveis de interação você experimenta, só boia, já aprendeu a nadar, surfa ou já sabe navegar? Numa reflexão dividida em duas partes, pensemos numa analogia, que compara nossa relação com as águas de um rio ou do amar, com experiências que podemos ter no Espírito Santo e com o mundo espiritual. Deus não quer que você só contemple as águas espirituais, mesmo que as admire, mas que entre nelas, as conheça e nelas encontre vida eterna. O oxigênio para a vida física está no mundo, enquanto no corpo físico não podemos abrir mão disso, isso é algo natural para nós, mas alimento para o nosso homem interior só as águas do Espírito podem dar, isso provamos por escolha e com trabalho. 
      Numa primeira experiência com as águas de um rio ou do mar podemos prender a respiração e simplesmente nos afundarmos, depois podemos até boiar na superfície, comparando com a interação com o Esprito Santo isso significa sentirmos a presença de Deus, por exemplo quando louvamos na igreja, de forma mais passiva, sem muita consciência de como interagir com o mundo espiritual pelos dons do Espírito. Isso é maravilhoso, sentimos o poder do Espírito Santo nos envolvendo, nem sabemos muito como ou porquê, mas sentimos uma grande liberdade para adorar e a presença muito próxima do Senhor. Essa experiência é deliciosa, mas a carne nos limita para que a vivenciemos por muito tempo, o cansaço, as necessidades físicas e mesmo as tentações pedem que subamos à tona ou que paremos de boiar e retornemos à terra firme para respirar. 
      Isso não é ruim, é bom, nos mostra que devemos viver no plano físico com equilíbrio, a espiritualidade no mundo se experimenta com a humildade de aceitarmos e administrarmos os limites, isso nos lembra que somos homens, não deuses. Podemos ter momentos incríveis em vigílias, jejuns e consagrações, mas nunca nos esqueçamos que temos que conviver com a realidade material, temos que trabalhar, nos alimentar, dormir, nos relacionarmos com as pessoas, vivenciarmos família e casamento, por isso não podemos prender a respiração para sempre para submergirmos ou boiarmos. Só na eternidade poderemos ficar na água para sempre, e mais, deixarmos que elas nos penetrem sem que ponham em risco nossos corpos, que não serão mais materiais, mas transformados. 
      Seguindo na analogia, podemos ter uma interação mais inteligente com as águas quando nadamos, nessa experiência não somos passivos mas ativos, com esforço podemos nos mover nas águas para a direção que desejarmos. Espiritualmente podemos interagir com o mundo espiritual de forma mais ativa, isso ocorre quando nos enchemos com a unção não só para sentir um prazer espiritual, mas para agirmos, para pregarmos, para ministrarmos, para entendermos a Bíblia, para exercemos amor com as pessoas. Nadando pomos a cabeça para fora da água, vemos a realidade, e usamos espiritualidade racionalmente para influenciar positivamente o mundo, conseguimos fazer as duas coisas, nos relacionarmos com os dois planos ao mesmo tempo. 
      Essa talvez seja a interação mais equilibrada e mais possível à maioria dos cristãos, ainda que não entregue a experiência espiritual mais profunda, mas é mais duradoura que a primeira, e se soubermos nadar corretamente poderemos ter uma experiência espiritual mais prática e com finalidade de ajudar o próximo, não só para nosso regozijo individual. Contudo, mesmo nessa experiência em um momento nos cansaremos e precisaremos parar de nadar e voltar à terra para descansar, ela exige de nós esforço, mas é importante entender que parar de interagir com o mundo espiritual não é nos entregarmos à carme e ao pecado, é descansarmos. Quem descansa no momento e do jeito certo, depois de nadar tudo o que podia, estará satisfeito em Deus, não terá forças, vontade ou tempo para o pecado, apenas uma oportunidade para recobrar as forças físicas para depois continuar nadando. 
      Nosso espírito não se cansa, muito menos o Espírito de Deus finda, as águas sempre estarão lá e nós, se amarmos a Deus e entendermos que o mundo espiritual deve ter prioridade em nossas vidas, ainda que estejamos no plano físico, sempre desejaremos mais de Deus, sempre voltaremos a nadar e interagir com as águas. Na verdade, se vencermos a carne, e isso fazemos exercendo o livre arbítrio, entenderemos que nosso ser mais interior anela pelo espiritual, deseja-o mais que tudo, já que saímos de Deus, o pai dos espíritos, e para ele desejamos ardentemente retornar. Estar em Deus é a vocação maior de todo ser, assim, ainda que estejamos temporariamente no plano físico e precisemos de ar e terra firme, somos seres originalmente “aquáticos”, espirituais, nas águas do Espírito é onde de fato nos sentimos livres e satisfeitos.

Reflexão dividida em duas partes,
leia na postagem de amanhã a 2ª parte.
José Osório de Souza, 24/11/2020

05/03/21

Não deixe espaço vazio!

      “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.” II Timóteo 4.7

      Todos nós somos chamados por Deus com uma vocação maior, que vai além de nossa profissão secular, e mesmo além de cargos em igrejas, na verdade essas coisas são só ferramentas para desempenharmos nossa vocação, não a vocação em si. Cuidado, muitos, confundindo as coisas, podem se achar perdidos quando veem que algo não dá certo, como perda de emprego ou frustração com ministérios e líderes de igrejas, não enxergando que suas vocações espirituais vão muito além disso. Em nossa existência neste mundo construímos uma carreira, o apóstolo-teólogo Paulo tinha a dele, e no texto inicial está o registro do momento em que ele entendeu que essa carreira tinha chegado ao fim.
      Que momento feliz é esse na vida de um cristão, que infelizmente muitos não provam, pois veem os anos passarem sem que tenham feito tudo o que Deus tinha para eles. Não basta acabar a carreira, tem que ter sido após ter lutado na guerra certa, não por si mesmo ou pelos homens, mas por Deus e em Deus, mas tem mais, em tudo isso não podemos perder a fê, aqueles princípios fundamentais, que nos encantaram e motivaram no início de nossas carreiras. Quem assim procede não deixará espaço para o pecado, contudo, se você percebe que está sendo reincidente no pecado, pode ser por estar querendo descansar antes do tempo, por estar lutando em guerra errada, ou por ter se desviado da fé. 

      Se isso estiver ocorrendo, busque a Deus e peça para que ele revele onde está errando e o que deve fazer para ter vitória, você pode orar assim: 
- “Pai, se está sobrando espaço para o pecado em meu coração e em minha mente, porque não estou ocupando meu espírito com tua vontade, mostre-me o que preciso fazer para ocupar os espaços que me competem”;
- “Pai, se está sobrando tempo em minha vida porque não estou fazendo o que preciso fazer para ser alguém melhor, para mim, para meus semelhantes e para ti, ensina-me como usar mais e melhor meu tempo”;
- “Pai, se está sobrando dor que precise do prazer ilusório dos vícios da carne para ser esquecida, porque não estou me apropriando da paz que vem de ti e que cura toda a dor, ajuda-me a entender porque não estou em paz”; 
- “Pai, se está sobrando vontade para pecar, fortalece-me para fazer mais a tua vontade, seguindo a vocação que recebi de ti, para que eu me sinta satisfeito e se tiver que descansar que seja só depois de ter feito tudo certo”. 

      Nada pode sobrar de nosso ser para fora da luz de Deus, se isso ocorrer ele estará em trevas e nesse lugar o pecado tem liberdade para agir. É preciso que estejamos completos por Deus e completamente colocados nele, por dentro e por fora, cheios do Espírito Santo e fazendo a sua vontade. Quando assim procedemos nosso homem interior, nosso tempo, nossa vontade e nosso prazer, agradarão ao Senhor, e assim, se precisarmos parar de trabalhar, já que nosso espírito não se cansa mas o nosso corpo físico, que é templo dele, precisa de descanso, não haverá em nós qualquer brecha para que o pecado seja mais relevante que a espiritualidade. Na batalha espiritual não pode haver espaço desocupado! 
      Se a luz não ocupar um local, as trevas ocupam, e as trevas ocupam não por vencerem a luz, as trevas nunca vencem a luz, mas elas ocupam espaço que o ser humano não vigiou e deixou sem luz. Nessa batalha, nós, seres humanos encarnados, podemos descansar, mas só quando estivermos totalmente felizes e em paz com Deus, e ainda assim deve ser o tempo de descanso que Deus orientar, nem menos, nem mais. Se for menos, voltaremos à luta ainda cansados, correndo o risco de perdermos uma batalha. Se for mais, permitiremos, pela ociosidade, que um espaço vazio e perigoso exista, que as trevas podem ocupar criando em nós uma relevância para os vícios da carne que nos levam a pecar. 
      Não se desespere, enquanto estivermos neste mundo, ainda que tenhamos feito tudo certo, estamos sujeitos ao pecado, dessa forma sejamos humildes, confiando antes no amor de Deus que em nossos méritos, Deus sempre perdoa e dá paz para os que se aproximam dele em verdade. “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (I João 3.18), o que adianta enchermos templos de igrejas com palavras se na prática não nos esforçamos para sermos santos? É preciso vontade para obedecer a Deus até o fim, principalmente depois que trabalhamos bastante nele, já que mesmo isso não nos dá o direito de abrir mão de vigilância, é preciso ocupar todos os espaços, sempre! 

04/03/21

Trabalhar para ser virtuoso

     “O galardão da humildade e o temor do Senhor são riquezas, honra e vida.” Provérbios 22.4

      Riquezas, que de fato nos abençoam e permanecem, não são adquiridas gratuitamente, é preciso muito trabalho para poder ter direito a elas, virtudes são riquezas, morais e espirituais, que por fim beneficiam nossas vidas materiais. Quando Deus nos salva por Cristo e nos sela com o Espírito Santo, ele nos perdoa e nos dá direito a um lugar melhor com ele na eternidade, assim não só achamos prazer no bem e na paz como ganhamos capacidade para sermos bons e pacíficos, obedecendo e louvando a Deus e seguindo em santidade. 
      Contudo, apesar de obtermos esse discernimento na luz, não retemos rapidamente as virtudes de maneira mais plena, é preciso tempo para que nossa alma, pensamentos e sentimentos, acostumados aos hábitos e vícios do velho homem, pratiquem aquilo que nosso novo homem interior entendeu em nosso espírito. Só seguramos as virtude com trabalho, e esse trabalho pode demorar muito tempo para muitos de nós, até que um dia de fato possamos gozar as riquezas, a honra e a vida que advêm da humildade e do temor do Senhor. 
      A grande virada em nossas vidas começa na humildade, que assume erros com responsabilidade individual, não pondo a culpa deles nos outros ou tentando se convencer que eles não existem. É preciso que sejamos honestos com nós mesmos, nos aceitando por completos, sem concessões, crendo que em Deus possamos ser melhores, ainda que muitas vezes tendo errado muito e por muito tempo. Deus, contudo, não nos mede pelo passado, mas por uma escolha certa que fazemos naquilo que representa o agora em nossas vidas. 
      Que importa que outros levaram menos tempo para acertar, e mesmo isso pode ser uma ilusão, já que alguns são especialistas em tentar enganar o universo, quem conhece cada um e seu tempo é o Senhor. Sabe por que não importa? “Porque vale mais um dia nos teus átrios do que mil” (Salmos 84.10a), e os átrios do Senhor na nova aliança não são a construção do templo físico de uma igreja cristã, mas uma vida em comunhão com o Senhor. Pode demorar décadas para entendermos, mas quando aprendemos a felicidade faz valer a pena.
      Não se canse e nem desista, aprender a ser humilde e andar com temor a Deus dá trabalho, cada um de nós deve administrar a personalidade, o caráter, a estrutura emocional, mesmo as enfermidades e limites físicos, erguendo a cabeça e olhando para Deus. “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me” (Mateus 16.24b), sim, existe uma cruz que os homens devem carregar, não é a que salva, mas a que conduz pela vida eterna, é bem menor que a de Cristo, mas devemos levá-la, com humildade. 

03/03/21

Só resista

      “E eu te porei contra este povo como forte muro de bronze; e pelejarão contra ti, mas não prevalecerão contra ti; porque eu sou contigo para te guardar, para te livrar deles, diz o Senhor.” Jeremias 15.20

      Às vezes para fazermos a vontade do Senhor e sermos vitoriosos numa questão, não é preciso atacar e muito menos retroceder, mas simplesmente resistir, parados e firmes, como um “forte muro de bronze”. Pode parecer fácil não fazer nada, ficar calado, apenas nos mantermos na posição em que Deus nos colocou, mas não é, temos à tendência sempre de reagir a um ataque, ou fugindo para nos proteger ou agredindo para anular o ataque. Permanecer íntegro e em paz, só resistindo pelo Espírito de Deus, pode exigir de nós mais espiritualidade que achamos que pode, Jesus é quem dá o melhor exemplo disso, na maioria das vezes resistia calado aos ataques dos líderes religiosos judeus invejosos e maliciosos. 
      Mas é importante que entendamos que devemos agir assim quando Deus manda, muitas vezes Deus manda que ainda que sem reagir, tomemos outra direção, nos desviemos do agressor, e outras vezes o Senhor pode nos levar a reagir com uma resposta espiritual, com a espada do Espírito Santo, que ainda que seja usada em amor e justiça anulará a agressão. Se Deus, contudo, mandar que permaneçamos onde estamos, que mantenhamos nossa posição, nossa convicção, nossa palavra, nossa interpretação dos fatos, é porque teremos vitória na questão assim, ainda que nosso agressor grite e esperneie, repetindo e insistindo em seus argumentos, em sua violência, em seu ataque às vezes desproporcional e descontrolado. 
      Por que às vezes essa é a melhor reação? Porque o silêncio muitas vezes pode falar mais alto e melhor que as palavras, o silêncio pode dar oportunidade ao agressor de refletir sobre sua agressão, sobre sua atitude, sobre suas palavras, já que se nos calamos o que vai ficar em sua cabeça são suas palavras, não as nossas. Isso também é um gesto de confiança na inteligência alheia, mesmo que alguém perca o controle e esteja errado, todos têm dentro de si o mínimo de discernimento para saber se estão certos ou não. Os orgulhosos, contudo, dificilmente ouvirão os outros, mas só a si mesmos, assim no nosso silêncio eles têm a chance de se ouvirem, e quiçá, mudarem de atitude, a melhor arma contra nós somos nós mesmos. 

02/03/21

Luz (2/2)

      “Busquei ao Senhor, e ele me respondeu; livrou-me de todos os meus temores. Olharam para ele, e foram iluminados; e os seus rostos não ficaram confundidos. Clamou este pobre, e o Senhor o ouviu, e o salvou de todas as suas angústias.” Salmos 34.4-6

      O conhecimento mais alto de Deus ilumina, só na luz pode-se crescer, o cristão, que tem o privilégio de crer no único caminho que leva diretamente ao pai das luzes, ao Deus Altíssimo onde está a luz mais forte, pode ter uma mente, um coração e um espírito iluminados, mais do que ninguém. Entretanto, quantas trevas pode haver na mente de muitos frequentadores de templos evangélicos, e bastante na alma de católicos em catedrais. A verdade maior é viva e como tal não é limitada, quanto mais dela sabemos, mais queremos saber e mais podemos saber, contudo, quando se dogmatiza algo, se mata uma verdade, ela é aprisionada e fechada, líderes fazem isso por puro medo, medo de perderem o controle sobre outros homens. 
     Na luz espiritual temos visão infinita, podemos compará-la a um microscópio, onde, usando lentes cada vez mais potentes, podemos ver cada vez mais profundamente. No início podemos ver só a pele, mas depois vemos dentro do corpo, depois discernimos carne, músculos, ossos, veias, depois separamos o sangue em leucócitos, hemácias e plaquetas, depois vemos as células, e seguimos olhando dentro das células. A luz espiritual é tão infinita quanto Deus, não é uma claridade como a física que cansa os olhos e pode até cegar. Contudo, o que não está preparado para essa luz mais alta, por não ter olhos espirituais, olhará e nada verá, assim, talvez a grande pergunta a ser feita seja: para que realmente estamos olhando? 
      Essa pergunta o “Como o ar que respiro” tem feito de várias maneiras nos últimos tempos, com reflexões como as de “reavaliações de nossa crenças”, de questões como “Deus ou religião?”, assim como no livro compartilhado aqui sobre “Espiritualidade Cristã”, mas vou perguntar de novo: estamos olhando para Deus, diretamente para ele, através de Jesus e por meio do Espírito Santo, ou para o que os homens dizem ser Deus? O texto inicial diz, “olharam para ele e foram iluminados e os seus rostos não ficaram confundidos”, a iluminação está toda em Deus. Para ver Deus precisamos dos olhos que ele dá, ele é meio, o propósito original e o fim, a nós, homens, cabe somente nos colocarmos em plena comunhão com ele.   
      Vencer os preconceitos não é fácil, eles são construções das tradições e essas nos protegem pois entregam conceitos provados pelo tempo e aprovados pelos homens, que abraçarão quem neles se refugiar. Iluminação espiritual é jornada, que pelo menos no início, é solitária, pelo menos, porque o mais certo é que ela siga assim até o fim. Quem é iluminado entra num caminho sem volta, quem é libertado pelo conhecimento não se colocará cativo novamente. Finalmente, faço uma pergunta, quais são os teus temores, resumem-se a não ter grana para pagar o boleto que vence dia dez, ou já chegou no nível de querer saber mais sobre espiritualidade na luz do Deus Altíssimo? Deus responde, mas cabe a você perguntar, ou não. 
      Uma última palavra, agora aos não cristãos, aos “adeptos” e “iniciados” que se esforçam na “grande obra” de iluminação, através das “entidades” espirituais, de rituais e protocolos mágicos. Saibam vocês que ainda que a maioria dos cristãos se aprofunde pouco em alguns assuntos, e vocês muito mais que eles, os cristãos podem ter o que mais importa, que dá acesso, não às potestades rebeldes, mas a Deus, acima de toda potestade, por isso, o Altíssimo. Essa é a maior iluminação que um ser pode ter e que definirá sua eternidade, iluminação de verdade só existe através do Espírito Santo que têm os que creem em Cristo como único e suficiente salvador. Os cristãos podem lhes parecer rasos, mas eles são focados, no principal. 

Reflexão dividida em duas partes,
leia na postagem de ontem a 1ª parte.
José Osório de Souza, 10/11/2020

01/03/21

Luz (1/2)

      “Busquei ao Senhor, e ele me respondeu; livrou-me de todos os meus temores. Olharam para ele, e foram iluminados; e os seus rostos não ficaram confundidos. Clamou este pobre, e o Senhor o ouviu, e o salvou de todas as suas angústias.” Salmos 34.4-6

      O termo luz, relacionado à espiritualidade, é um termo mais usado em religiões espiritualistas e esotéricas, no cristianismo é menos usado, ainda que apareça na Bíblia. Como cristãos usamos as referências luz e trevas para separar anjos de demônios, seres espirituais do bem, dos seres espirituais do mal, assim como para separar justos de iníquos, distinguindo qualidade moral dos homens. Mas nesta reflexão pretendo chamar a atenção para o termo iluminação referindo-me a uma condição de maior intimidade com o Esprito do Deus Altíssimo, onde se tem um conhecimento espiritual mais profundo, conhecimento, que ainda que esteja na Bíblia, precisa de dedicação maior do cristão para ser esclarecido. 
      Muitos não sabem porque não perguntam, não perguntam porque sentem-se proibidos por preconceitos, preconceitos que dizem que não há mais nada para se saber, portanto nada a se questionar. O texto inicial diz que quando estamos com temores, buscamos a Deus e ele nos liberta deles, a interpretação mais comum e imediata de temores são os medos que temos no dia a dia de nossas vidas, e sejamos honestos, eles se referem muito mais a receios sobre nossa vida material, sobre nossos empregos, nossos ganhos, nossos gastos, ou então sobre nossas relações afetivas mais próximas, namoros, casamentos, enfim, sobre o plano físico. Mas será que são só desses temores que o Senhor nos livra, que nos ilumina? 
      Sei que a grande maioria das pessoas, principalmente num país como o Brasil, tão roubado por políticos, teme a falta de dinheiro pra comprar o básico para a sobrevivência, comida, roupa, moradia, não posso ser duro ou injusto com tantos que sofrem por não terem o mínimo para uma vida digna, e tantos dentro de igrejas cristãs. Pesquisas mostram que o brasileiro dos últimos anos está mais obeso justamente porque, felizmente, ao menos para se alimentar, uma grande parte da população, tem meios, mas basta um caos rápido, como o provocado pela pandemia do Corona vírus, para lançar o nosso país de novo na pobreza mais séria, com desemprego e falta de serviços básicos de saúde e educação.
      Seria bom podermos subir o nosso nível de necessidades, das físicas básicas para as culturais, e depois, enfim, para as espirituais, seria bom que grande parte da população ganhasse o suficiente para comer, se vestir e morar, para que então sobrasse para educação e cultura, e depois disso, sobrasse tempo e interesse para pensar mais na existência, tanto neste mundo como no outro. Eu aprendi algo com Deus, seu eu buscar, se eu bater, se eu pedir, Deus me responderá, mesmo a questões mais difíceis e misteriosas, como sobre o mundo espiritual, a vida pós-morte, e tantos questionamentos que outras religiões e metafísicas se importam em discutir e conhecer e que o cristianismo releva dizendo que já sabe o suficiente.
      “Parabéns” à Igreja Católica, da qual protestantes e evangélicos ainda fazem parte de alguma maneira, ela conseguiu dogmatizar a mente de grande parte da civilização ocidental. A maioria ainda acha que certos conhecimentos são coisas de ordens secretas, da maçonaria, da bruxaria, do diabo, e bons cristãos não devem buscá-los, isso nivela por baixo, prende os homens à infantilidade espiritual. Não, meus queridos, saber sobre o mundo espiritual não é só satisfazer uma curiosidade, que mais desvia que encaminha, o verdadeiro conhecimento espiritual de Deus não é mera informação, mas é vida, saber o que Deus quer que saibamos nos alimenta e nos dá forças para termos vitória, sobre nós, sobre o mundo, sobre os demônios. 

Reflexão dividida em duas partes,
leia na postagem de amanhã a 2ª parte.
José Osório de Souza, 10/11/2020

28/02/21

Raiz, tronco ou galhos? (Íntegra)

 -I-

     “E disse-me um dos anciãos: Não chores; eis aqui o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, que venceu, para abrir o livro e desatar os seus sete selos.” Apocalipse 5.5

      Uma religião, uma ótica de religação com o divino, entregue por um fundador, um ser singular, nunca nasce diluída, nasce pura, contudo, com o tempo, por ser “concentrada” demais, percebe-se que é difícil de ser vivenciada pela maioria, assim como difícil de ser controlada pelos primeiros que se desviam da pureza inicial, os líderes. Dessa forma, o princípio original divino é modificado, retirando-se dele elementos originais ou misturando a ele elementos humanos, de modo que a maioria possa digerir, assim como para que a liderança, já desviada, mantenha-se no poder. A mistura é uma tradição, não é a raiz, mas uma construção sobre ela, que inicia-se com um tronco, a parte mais aparentemente forte da árvore.
      Do cristianismo original, a raiz, nasceu o tronco, a igreja católica, o tronco representa a tradição mais forte, com mais influência no mundo material, tanto que é a parte da árvore que muitos pensam ser a própria árvore, desconsiderando as outras partes. Do tronco, o Catolicismo, nasceram os galhos, semelhantes ao tronco mas com características próprias, criadas por adição de novos elementos ou subtração de elementos originais, as igrejas ortodoxa, anglicana, anabatista, protestantes, pentecostais etc. O próprio cristianismo é galho de uma raiz mais velha, a religião israelita, e a religião de Moisés também foi galho, de uma religião ainda mais antiga, nascida quando o homem foi expulso do Éden. 
      Qual é a religião verdadeira? A raiz. Mas qual é a viável? Todas as outras, viáveis para que o homem creia com mais conforto, respeitando seus limites, e não se perdendo em verdades para as quais ele não está preparado. Deus respeita toda a árvore, usa toda a árvore, ainda que sua verdade maior e mais pura esteja na raiz e que o resto da árvore sejam só tradições humanas. O crescimento da árvore não é um processo artificial, é natural, pelo menos no mundo, no plano físico, da raiz nasce o tronco que gera os galhos e que produz as folhas e as flores, os indivíduos ligados à religião. Contudo, ainda assim, precisamos saber que a raiz é o fundamento sem o qual nenhuma tradição existe, no cristianismo o Espírito Santo é a raiz. 
      O perigo é nos acostumarmos com refrigerantes e acabarmos nos esquecendo da água, eles matam a sede, mas ganham sabores artificiais para serem mais comprados e consumidos, já a água é pura e gratuita na natureza. Pagamos nas tradições preços desnecessários, já que o Espírito Santo se recebe gratuitamente e ele é a raiz do cristianismo, o mestre supremo, o representante oficial de Jesus na Terra. Precisamos frequentar  as tradições, principalmente no início da caminhada, mas as encaremos como verdades originais diluídas em outras coisas, para que as pessoas possam vivencia-las. As pessoas são diferentes, assim adiciona-se à verdade original ingredientes diferentes, criando-se assim tradições diferentes. 
      Quando os autores do novo testamento escreveram seus textos, eles não tinham noção de que a raiz produziria tronco e galhos, não sabiam que à água seriam adicionados artifícios para que agradasse as pessoas, nem que ensinos importantes seriam deixados de lado para a conveniência de homens. Mas eles também não tinham noção que eles mesmos, a partir do momento que pensaram nas experiências originais que tiveram com Cristo e com testemunhas diretas da obra de Jesus, já estavam interpretando a verdade de acordo com suas subjetividades, assim a raiz já produzia o início do tronco. Nas epístolas paulinas, textos que formaram a base da doutrina cristã, já havia algo de Paulo adicionado à pura palavra de Cristo. 
      Só no plano espiritual, na eternidade, a verdade pura pode ser compartilhada sem que sofra mutação, no mundo tudo passa pela mente humana, e essa é imperfeita, para entender, processar e registrar o que recebe, principalmente conhecimento espiritual que difere de conhecimento intelectual. O conhecimento intelectual pode ser explicado cientificamente e por isso pode ser mantido, formulado, mas o espiritual requer fé, e essa é subjetiva, de acordo com cada pessoa. Mas a beleza do conhecimento espiritual é que ele pode ser apresentado pelos realmente espirituais como metáforas, como as simbologias da árvore e da água que usei aqui, assim as mesmas palavras podem revelar níveis diferentes de mistérios espirituais. 
      Esses níveis podem ser compreendidos tanto pelos novos na fé, quanto pelos mais aprofundados na comunhão com Deus, Jesus era mestre em entregar mistérios espirituais em metáforas, são as parábolas. Jesus homem conhecia o homem (e muito mais pode manifestar desse conhecimento hoje como Deus na eternidade), entendia tudo que a humanidade faria com o evangelho, como seria usado, tanto para salvação e conhecimento de Deus como para fins egoístas e materialistas para que homens controlassem e manipulassem outros homens através da religião. Jesus não era católico, muito menos batista, presbiteriano ou assembleiano, Jesus era o Cristo, um com o pai e plenamente revelado no Espírito Santo que enviou. 

-II-

      “Não te glories contra os ramos; e, se contra eles te gloriares, não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz a ti.” Romanos 11.18

      Nestas texto sigo tentando novamente desconstruir dogmas e preconceitos, desprender mentes de religiões de homens para captarem o que importa e não darem tanta importância ao resto. Jesus, único e suficiente salvador, que dá acesso ao verdadeiro Deus através da plena comunhão do Santo Espírito, que sela os salvos e os ensina sobre o mundo espiritual e sobre a razão da existência humana à medida que os conduz vitoriosos e em paz para que cultivem aquilo que importa, virtudes espirituais eternas da luz, essa é a raiz! O resto, bem, tome muito cuidado com o resto, tem muito de homem nas tradições, coisas que devemos respeitar, mas também saber quando desconsiderar. 
      A vaidade é um dos pecados favoritos do diabo, ele tenta todos com ela e em todas as áreas, física, emocional e espiritual. O tronco é a parte mais visível da árvore, pelo menos em tamanho, é forte, vigoroso, sustenta os galhos sobre ele, mas os galhos também são importantes, apesar de dependentes do tronco, eles produzem as folhas, flores e frutos, menores em tamanho, mas o objetivo final da árvore. Quanto à raiz, ela não é vista, fica submersa na terra, pelo menos sua parte mais profunda, aquela que retira da terra e da água o alimento que mantém toda a árvore viva. Para o vaidoso é melhor ser raiz, tronco ou galhos? Ser raiz está em terceiro lugar nesse ranking, isso é certo, o vaidoso quer aparecer, não ficar anônimo. 
      Me permitam refletir mais um pouco nessa metáfora, que vê o cristianismo no mundo como uma árvore, a mais frondosa entre as religiões, em cuja sombra o ocidente evoluiu, se enriqueceu e dominou o resto do planeta. A tradição cristã mais estruturada dos homens levantou uma árvore imponente, mesmo quando os galhos secaram e as folhas, flores e frutos não cresceram, o tronco se manteve, robusto, dominador, severo, resistindo a guerras, ascensão e queda de impérios. O tronco é o catolicismo, a maneira que o império romano achou para continuar existindo no mundo, os papas são os novos imperadores, que não conquistam com batalhas, mas com o marketing de serem os predecessores legítimos de Pedro.
      Atualmente os galhos se multiplicaram e de tal maneira que se tornaram pesados, encobrindo o tronco, mas ainda assim estão ligados ao tronco, mesmo que protestantes e evangélicos não admitam isso, que se considerem independentes e até melhores que os católicos. Mas pode um galho se desligar do tronco sem morrer? Não, assim ainda que neguem, o sonho dos galhos é ser como o tronco, por isso crescem tanto as denominações chamadas neo-pentecostais, como a I.U.R.D., que têm o desejo íntimo de serem novas igrejas católicas, para dominarem, enriquecerem e permanecerem como fez o catolicismo. Mas não é só nesse aspecto que os galhos estão presos ao tronco, é também no aspecto doutrinário. 
      Poderia se argumentar, “mas e as teses de Martinho Lutero, a proposta de volta a um cristianismo mais simples fundamentado na fé e não em obras e indulgências, onde haveria menos diferença entre leigos e sacerdotes, tirando o poder de liturgias, rituais e sacramentos, separando igreja de estado e colocando a Bíblia acima da infalibilidade papal”? Digamos que o protestantismo tirou a cobertura do bolo, mas manteve a massa, um bolo agora mais seco e esteticamente menos burocrático, sem a pompa das hierarquias, dos títulos, das catedrais, sem o Vaticano, mas no fundo com os mesmos ingredientes básicos, enfim, não se voltou à raiz, e na verdade nem se queria, por isso se chamou reforma, não revolução. 
      Quer conhecer mais sobre Martinho Lutero, leia textos protestantes e católicos, nos dois achará exageros, uns romantizando-o e outros demonizando-o, em ambos existem informações não verídicas e verídicas. Qual é a verdade? Decida você, mas cuidado crentes, não se iludam com uma tradição que ensina Lutero como quase um personagem bíblico. Lutero nem pretendia sair do catolicismo, só queria reformá-lo, mas foi expulso e fundou uma religião, que deu oportunidade para poderosos da Alemanha se apossarem de bens que eram da igreja católica em seu país. Eis um objetivo materialista e nada espiritual na reforma protestante, sem mencionar a morte de Lutero, que pode não ter sido a morte de um cristão exemplar.  
      O reinício protestante não manteve no mundo um cristianismo raiz, hoje evangélicos são basicamente católicos sem idolatria, mas na prática não vivem um cristianismo que faz diferença na sociedade, os galhos continuaram intrinsecamente ligados ao tronco e com muita vontade de serem novos troncos, iguais ao primeiro. A vaidade que corrompeu o tronco, corrompe também os galhos, enquanto a raiz é esquecida. Ah, católicos e evangélicos, todos igualmente vaidosos, achando-se uns melhores que os outros, uns com mais legitimidade para dominarem sobre os outros, nem precisam sair de onde estão, mudarem fisicamente de igreja, é o coração que precisa mudar, espiritualmente, da religião para Deus. 

-III-

      “Eu, Jesus, enviei o meu anjo, para vos testificar estas coisas nas igrejas. Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã.” Apocalipse 22.16

      Em minha caminhada com Deus, confesso que já tive posicionamentos diferentes com relação à raiz, tronco e galhos, mudei de opinião mais de uma vez sobre a relevância das religiões em relação àquilo que experimentam os homens de Deus, sobre a importância que Deus dá às religiões e principalmente às religiões cristãs protestantes e evangélicas. Num primeiro momento acreditava que a denominação da qual eu fazia parte era a raiz e todas as outras, católica, protestantes e evangélicas, não eram nem tronco e galhos, mas outras e estranhas árvores, totalmente fora da verdade mais pura. Muitos hoje pensam assim, creem que suas religiões cristãs são as corretas, as oficiais, e as outras são erradas, seitas heréticas. 
      Num segundo momento eu consegui enxergar a árvore, mas dando relevância à raiz e pensando que todas as religiões deveriam deixar de serem tronco e galhos e voltarem à raiz. Esse posicionamento pode parecer o ideal, o melhor, mas ele desconsidera a misericórdia de Deus e a própria história do cristianismo na Terra, esse momento experimentei até há pouco tempo, e ainda que não represente melhor a realidade é um ideal sempre válido de ser pensado. Vivo um terceiro momento, e nesse as religiões deixaram de ter o lugar número dois na espiritualidade e passaram a ter o lugar número três, em primeiro lugar está Deus, em segundo lugar estão os homens, e em terceiro lugar estão as religiões, a hierarquia mudou para mim. 
      Os homens são os meios entre Deus e as religiões e não as religiões, os meios entre Deus e os homens, sendo assim, Jesus é o meio direto entre o homem e Deus, e o homem depois cria as religiões conforme sua subjetividade. Se colocamos a religião no segundo lugar entregamos a ela o direito de ter comunhão com Deus através de Cristo e nos obrigamos a aceitar a subjetividade das religiões sobre o que é Deus. Qual a diferença? A diferença está no indivíduo, não nas instituições ou num grupo de indivíduos que criam e mantêm a tradição. Não seremos confrontados pela luz do Altíssimo na eternidade sendo questionados sobre qual foi nossa religião, sobre o que ela cria ou fazia, mas sobre quem nos tornamos nelas. 
      Sim, as tradições cristãs têm seus objetivos, ao meu ver podem funcionar como cursos primários cristãos, mas não devemos delegar a elas direitos exclusivos para nos entregarem o curso cristão avançado, e não pense que fazer uma faculdade teológica nos dá o crédito de avançado, isso só nos faz mais conhecedores das tradições, dos galhos e do tronco, não da raiz. As religiões são ferramentas, não fins em si mesmas, e muitos poderão se tornar seres humanos espiritualmente melhores mesmo em tradições que muitos de nós consideram religiões limitadas e mesmo erráticas. Às vezes pode ser melhor nos comprometermos menos com teoria e praticar mais que sabermos mais e não vivermos o suficiente disso. 
      Trajetória espiritual é algo individual, somos nós e Deus, paremos de uma vez por todas de colocar religião entre nós e Deus, paremos de “religare”, religião, todas elas, é coisa de homem, é tradição construída por seleção conveniente a homens que desejavam e desejam manter poder sobre homens. O Espírito Santo foi e é esquecido nas escolhas que criam as tradições, e no melhor das circunstâncias, ainda que ouvido, interpretado conforme a subjetividade humana, limitada ao tempo e espaço do plano físico. Contudo, se você quiser, de verdade, conhecer mais a Deus, saber sobre o mundo espiritual, entender de fato porque existimos, de onde viemos e para onde vamos, você conseguirá, focando-se na raiz.
      A busca espiritual não sobe como uma árvore para ser vista e festejada pelos homens, não está no tronco e nos galhos, esses acabam nas folhas, flores e frutos que são os homens. A busca desce, para a raiz, que ainda que pareça sumir diante dos homens, do mundo material, aprofunda-se pelo espírito humano no Espírito de Deus. Os que acham a Deus e sua mais profunda espiritualidade não expõem isso para qualquer um e de qualquer jeito, sim, eles vivem de maneira diferenciada a paz e a luz, mas o conhecimento eles guardam em seus corações como algo muito precioso. A raiz não fica exposta, mas escondida, para ser preservada, e eis aqui a última metáfora espiritual desta reflexão, para os que têm olhos para ver. 

-IV-

      “Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade, porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem, o qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo.” I Timóteo 2.3-6

      Penso que no momento atual da história da humanidade, a prioridade de Deus seja a salvação do maior número possível de pessoas, não importando muito o nível de conhecimento espiritual que elas tenham, assim basta às religiões cristãs darem o curso básico, que é o que Paulo descreveu no texto inicial. Muitos podem responder a essa afirmação com uma pergunta: mas esse não é o único interesse de Deus sempre, salvar as pessoas, isso não basta? A resposta vai depender da tua fé, e novamente digo aqui, não ande conforme a fé dos outros, muito menos de acordo com a fé desse que vos escreve, mas conforme a tua fé, seremos cobrados pelo que cremos e praticamos, não pelo que os outros creem e praticam. 
      Também preciso deixar claro que com nível mais alto de conhecimento espiritual não quero dizer que os cristãos atuais sejam carnais, não é isso, existem virtudes, transformação de vida, mas ainda que muitos não aceitem, é um evangelho que prepara as pessoas muitos mais para uma vida neste mundo, no plano material, que para a eternidade. Mesmo a visão que muitos cristãos têm da eternidade é rasa, bem aquém da verdade mais alta, a maioria não está preparada para revelações mais profundas, a maioria prefere tronco e galhos à raiz. Contudo, as tradições têm um papel importante na religiosidade, um lado positivo, elas protegem os tolos de si mesmos, entregam uma zona de conforto para os de pouca fé. 
      Com pouca fé não me refiro à fé que não crê que Deus cura enfermidades ou “mova montanhas”, mesmo esse nível de fé pregado por tantos pastores atuais e que tantos crentes acham ser o nível mais alto de espiritualidade é, novamente dizendo, só para ter uma vida próspera neste mundo. Mesmo essa tal grande fé, comparada a que se pode ter para se ter um conhecimento espiritual mais profundo e que prepara o homem para o plano espiritual muito mais que para o fisico, é menor. Mas lembre-se, fé, ainda que exija potências humanas, imaginação mental e convicção emocional de algo que ainda não existe, não é força, é descanso, que permite que o espírito humano se mova no Espírito de Deus.
      Na árvore na qual o cristianismo se transformou, as tradições do tronco e dos galhos protegem os de pouca fé, mas também protegem a verdade mais profunda de cair em mãos despreparadas, ainda que seja inventando histórias como as que contamos para crianças para que elas não saiam debaixo das proteções dos adultos. Crianças não estão preparadas para fazer escolhas, para serem independentes, dessa forma os adultos têm que escolher por elas para que elas vivam na dependência deles, do mesmo jeito as tradições procedem. Mas se o lado bom das tradições é cuidar de cristãos infantis, protegendo-os, proibindo certas coisas e dando outras gratuitamente, o lado negativo é que impedem “crianças” de crescer. 
      Tradições não querem que as pessoas amadureçam, já entenderam há muito que quando isso ocorre as pessoas ficam independentes, assim deixam de alimentar as religiões com bens materiais e veneração. Foi justamente por entenderem isso que homens desviados do cristianismo raiz, criaram as tradições e fortaleceram tronco e galhos. Tradições são acúmulos de velhos conhecimentos humanos, interpretações da verdade, não a verdade pura, por isso são mortas. A Igreja Católica construiu sua tradição em concílios e encíclicas, e dando às palavras de papas o mesmo (ou maior) valor que tem a Bíblia, e mais, adicionando à Bíblia livros que não estão presentes na chamada bíblia hebraica atual (ver item “Composições”). 
      O verdadeiro conhecimento de Deus não precisa ser “tradicionalizado” para adquirir legitimidade, não a legitimidade realmente divina, não precisa de um formato que impressione os homens, de pompa, de liturgia. O Espírito Santo é puro conteúdo que deve ser guardado no espírito do homem, não nas instituições, quem dá forma a Deus neste mundo são os indivíduos, não as igrejas, o homem é o templo do Espírito Santo, não catedrais e outras construções físicas. A palavra do Espírito Santo é viva, e ainda que fique antiga nos registros bíblicos feitos por homens ungidos nele, não envelhece e se renova diretamente por sua atuação, a terceira pessoa da trindade nos corações dos novos nascidos em Cristo.  
      Já as tradições levam as pessoas a serem dependentes delas, não de Deus, elas prendem, não libertam, elas crescem na proporção que Deus diminui, se fecham e mais tradições criam. Não se iludam protestantes e evangélicos, liderando suas instituições também existiram e existem homens que criaram e criam tradições para manterem seus poderes e controlarem os homens, sempre foi assim e sempre será, ainda que Deus se mostre nas tradições pela grande misericórdia que tem por todos os seres humanos. Deus não escraviza ninguém, mas quer que todos sejam livres, só Deus pode nos libertar, dos pecados do corpo, da alma e do espírito, essa libertação está no nome de Jesus e na presença do Espírito Santo. 

-V-

      “Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor.” Isaías 11.1-2

     Nesta reflexão, que compara o cristianismo a uma árvore, uma pergunta se levanta: se tronco e galhos são tradições humanas, então, pelo ideal de Deus, o cristianismo deveria ser uma planta diferente? Uma planta só com raiz, folhas, flores e frutos? Mas que tipo de planta seria esse? O cristianismo que Cristo viveu como homem era só raiz e fruto, como uma aboboreira, e eis uma nova metáfora. É importante dizer que nenhuma metáfora é perfeita, pode ser didática e nos ajudar a entender as coisas, mas só até certo ponto, ela sempre se mostrará limitada. Árvores podem ser altas, fazerem sombra que protege do Sol, e como ser clorofilado não se alimenta só pela raiz, suas folhas recebem a luz fazendo fotossíntese. 
      Mas o uso da árvore como metáfora da evolução histórica do cristianismo foi feito olhando a estrutura da planta, para tecer a crítica que o cristianismo não deveria se manter no tempo neste mundo como um organismo de partes distintas, raiz, tronco e galhos, mas como algo mais homogêneo, assim podemos concluir que uma planta rasteira e mais simples, como uma aboboreira, talvez seja uma metáfora mais adequada. Lição de biologia à parte, a religião, por trabalhar com valores espirituais, deveria ser algo desprendido de valores materiais, não deveria aparecer no mundo como uma rica instituição, como uma enorme e centenária árvore, mas como um organismo discreto, como foi a vida do Cristo homem. 
      A crítica aqui não é à árvore, mas às instituições cristãs, quanto antagonismo existe justamente na religião que se diz entregadora do único salvador de Deus para a humanidade, que é representado mais fortemente e por mais tempo no planeta justamente pela instituição mais poderosa de todas, a Igreja Católica, com catedrais, mosteiros, conventos, escolas, em todo o mundo, sediada numa cidade-estado, o Vaticano, e dona até de um banco. Não, meus queridos, o cristianismo deveria se parecer mais com uma aboboreira, raiz rente à terra que se aprofunda com discrição para se alimentar, numa intimidade com Deus sem vaidades, que ninguém precisa ver, mas com frutos grandes e que servem a todos generosamente. 
      Quem passa por um terreno onde uma aboboreira está plantada, se a planta não estiver com fruto, quase não a percebe, diferente de muitas árvores, que ainda que sem frutos, ou que deem frutos amargos ou mesmo venenosos, são vistas e admiradas. A aboboreira, contudo, tem o tempo certo para dar seu fruto, se parece sumida é porque está trabalhando. Assim, faço outra pergunta: que planta eu sou, ou, que planta quero ser? Uma grande árvore, que ainda que seja vistosa dá frutos venenosos ou nem os dá? Ou uma aboboreira, menor, escondida, mas que produz grandes frutos? O certo é que muitos usam tradições religiosas do mesmo jeito que usam bens materiais, para exaltar o homem diante de homens, não a Deus.
      As raízes mais fortes e profundas crescem dentro de nós, permitem que nossos espíritos se conectem com o Santo Espírito, isso não é uma ligação para homens verem. Quem olhava para o Cristo encarnado não via uma árvore vistosa, mas seus frutos, efeitos de uma comunhão interior plena com o pai, todos os seres humanos podem colher, frutos de amor e de vida eterna. Os líderes religiosos judeus do primeiro século, esses sim, se postavam como grandes árvores querendo tocar o céu, como a torre de Babel. Na verdade Babel nunca deixou de existir, quando uma é derrubada, outra é levantada em seu lugar, atualmente existe uma no Vaticano, um tronco enorme e seco, desligado da raiz, tentando dominar o mundo. 
      Contudo, não duvide, existem muitos homens espirituais “raiz” atualmente, quem eles são muitos só saberão na eternidade, suas vidas são as verdadeiras luzes que iluminam o mundo, eles, cada um à sua maneira, com o seu dom, ligados a igrejas ou sozinhos, discretos na clandestinidade, ajudam o próximo. Muitos cristãos, reconhecidos socialmente como bons religiosos, se surpreenderiam ao saber que alguém que conhecem e para o qual não dão muito valor, é uma luz espiritual forte que Deus usa para impedir que as trevas dominem os homens. Esses luzeiros não se preocupam com quantidade, mas com qualidade, fazem trabalho de formiguinha, dia a dia, obedecendo a Deus e esperando só dele aprovação. 

VI

      “Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” I Pedro 1.18-20

      Alguém pode dizer, “o que ocorreu com o cristianismo foi uma progresso natural, com o tempo as coisas mudam, nada fica igual para sempre, o homem muda, a religião muda”, bem, essa é uma argumentação sensata e poderia ser válida para o cristianismo se ele fosse coisa deste mundo. A arte muda, a cultura, a sociedade, a moralidade, a família, a sexualidade muda, mas uma verdade espiritual como a de Jesus, que salva o homem de maneira exclusiva e plena, que entrega promessas eternas, para o outro plano, eu, pelo menos, creio que não deve mudar. A obra redentora de Cristo não é coisa deste mundo, é algo que veio do mais profundo amor de Deus pelo ser humano, planejado desde o início dos tempos.  
      Contudo, em algum momento entre os séculos I e IV, entre a subida de Cristo ao céu e a promulgação do Édito de Milão, que transcreveu o acordo entre os imperadores cessando a perseguição aos cristãos, o cristianismo mudou. Quando a igreja católica nasceu não existia mais um cristianismo raiz, ela já nasceu desviada, seita baseada em tradições, ainda que poderosa, seita, em relação ao cristianismo original. Nessa declaração fica claro que a igreja católica não foi fundada por Cristo, ou por Pedro, mas por desviados do cristianismo primitivo, e nessa declaração também não desmereço católicos, não desacredito de suas sinceridades ou da qualidade de suas vidas morais e religiosas, mas constato um fato, aceitem isso ou não. 
      Homens maus têm o objetivo de controlar outros homens para obterem lucros, contudo, é impossível controlar todos o tempo todo, mesmo com opressão militar. A Igreja Católica, herdeira de um Império Romano decaído, achou um jeito de controlar os homens pela religião, por isso, desde o início, construiu um Cristo de acordo com seus interesses. Controlando esse falso Cristo ela poderia controlar os que nele cressem, já que o Jesus verdadeiro não pode ser controlado por ninguém. O falso Cristo foi montado com os dogmas, que incutiram nas mentes dos homens falsas doutrinas divinas, cuja desobediência repercutiria em duras penas, assim o catolicismo domina pelo medo, principalmente do diabo e do inferno. 
      Não estou negando o diabo e o inferno, em alguma instância esses existem sob muitas óticas religiosas, o engano, contudo, há em fortalecer Deus e legitimar o céu só pelo fortalecimento do diabo e do inferno. O erro está em atrair pessoas a Deus e ao céu, não pelo amor que o Altíssimo tem por todos os seres humanos e pelo direito ao céu que têm os que fazem escolhas morais corretas, mas potencializando o medo do diabo no mundo e das terríveis chamas do inferno na eternidade. Esse falso cristianismo cria e mantém crianças, dependes, medrosas e vazias, desejosas só de um poder que as proteja das trevas dentro das instituições, e não permite o amadurecimento de homens livres atraídos à luz mais alta pelo vivo e livre Espírito Santo. 
      Já refletimos muito sobre o desvio católico aqui, e já chegamos à conclusão que isso não interfere no plano de Deus de usar encarnação, morte e ressurreição de seu filho Jesus como único salvador para a humanidade. Deus nunca teve interesse em manter uma instituição religiosa como sua representante oficial no planeta Terra, se tivesse, a mais pura raiz do cristianismo teria se mantido assim por séculos. Se fosse isso o catolicismo idólatra não precisaria de uma reforma protestante para voltar ao evangelho original, ou o protestantismo intelectual de movimentos pentecostais para renovar uma tradição fria, ou de outra revolução, que ainda não ocorreu (no momento atual), para recuperar hereges na teologia da prosperidade.
      Deus só precisa de Jesus e do Espírito Santo, aquele que clamar a ele em nome de Cristo, com humildade, buscando perdão, e permitir ser ensinado pelo Espírito Santo, achará paz e luz, salvação eterna e vitória neste mundo, amor para vencer mágoas e injustiças, libertação de vícios e doenças emocionais, e paz para ser curado no corpo, e o que melhor cura nosso corpo é uma alma e um espírito em paz, sem culpas e rancores. Queridos católicos, evangélicos e protestantes, essa não é uma crítica destrutiva, mas reconstrutiva, não precisam deixar suas religiões, tradições nos fazem bem, nelas achamos semelhantes, mas entendamos que Deus é mais e tem muito mais para nós que as tradições do tronco e dos galhos têm. 

      “Todas as formas do culto romano são uma herança do passado. Suas cerimônias, seus vasos de ouro e prata, os cânticos, a água lustral, são legados do Paganismo. Do Bramanismo tomaram o altar, o fogo sagrado que nele arde, o pão e o licor de soma consagrados à Divindade. Do Budismo copiaram o celibato dos padres e a hierarquia sacerdotal. Uma lenta substituição se produziu, na qual se encontram os vestígios das crenças desaparecidas. Os deuses pagãos tornaram-se demônios. As divindades dos fenícios e dos assírios: Baal-Zebud (Belzebu), Astarot, Lúcifer, foram transformados em potências infernais. Os demônios do Platonismo, que eram Espíritos familiares, tornaram-se diabos. Dos heróis, das personagens veneradas na Gália, na Grécia, na Itália, fizeram santos. Conservaram as festas religiosas dos antigos povos, dando-lhes apenas formas diferentes, como a dos Mortos. Por toda parte enxertaram no antigo culto um culto novo, que era a sua reprodução sob outros nomes. Os próprios dogmas cristãos se encontram na Índia e na Pérsia.” (Fonte: “Cristianismo e E.”, Léon Denis, páginas 96-97)

 José Osório de Souza, 30/10/2020
    
VII 
 
      “E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos; e, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo:
      Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;
      Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;
      Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;
      Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;
      Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
      Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;
      Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;
      Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.” 
Mateus 5.1-12

      Nesta reflexão dividida em nove partes, criticamos o tronco e os galhos do cristianismo, mas e quanto à raiz, o que seria ela? Ela é o mais puro e genuíno ensino de Jesus e nenhum texto nos mostra com mais clareza esse ensino que o sermão da montanha (Mateus 5-7). Esse texto começa com as bem-aventuranças, que se os homens vivessem, a despeito de outros ensinos, bastariam para que recebessem de Deus sua raiz. 
      Cristão “raiz” não é saber Bíblia e teologia de trás pra frente, não é experimentar dons espirituais, não é adorar a Deus com liberdade, não é ser assíduo numa igreja “pop” com os melhores ministros e pregadores, não meus queridos, tudo isso não representa necessariamente o cristianismo “raiz”, o cristianismo “raiz” é sempre menos, não mais, pelo menos aos olhos dos homens, por isso muitos não o buscam. 
      O Cristo “raiz” não é um reino no mundo, mas no céu, não é aprovação de homens, mas de Deus, não é o abrigo físico de instituições religiosas, mas a iluminação espiritual do Altíssimo que conduz à vida eterna, essa raiz tem preços, a morte do ego, a busca de virtudes interiores e não de aparência, o sofrer sem merecer e ainda assim não reclamar nem se fazer de vítima, mas se achar bem-aventurado do Senhor. 
      “E Jesus, vendo a multidão subiu a um monte, e assentando-se aproximaram-se dele os seus discípulos, e abrindo a sua boca, os ensinava“, tente imaginar essa cena, Jesus sentado num lugar alto, com aqueles que amavam seu ensino sentados ao redor, enquanto as palavras mais espirituais de todas as que foram pronunciadas neste mundo eram ditas, no plano espiritual nossa existência será assim. 
      Pobres de espírito são os humildes, que vivem sem qualquer intenção de se exibirem aos homens para imporem vaidades, que não fazem questão de serem tidos como menores e desimportantes, que permanecem em paz por confiarem, que o Deus que lhes perdoou, sabe que eles estão seguindo esforçando-se para serem melhores, ainda que ninguém acredite nisso e os julgue pelo que foram, não pelo que são.  
      Os humildes são felizes mesmo com os corações partidos, mesmo chorando por dentro, porque suas lágrimas não são de perdedores, mas de vitoriosos, não são invejosos e recalcados, mas quebrantados que acharam sob as asas do Altíssimo o consolo que é escudo contra todo egoísmo e injustiça, seus prantos sobem como incenso perfumado para Deus que se agrada deles e para eles sorri. 
      Esse consolo deixa no coração serenidade que produz a mansidão verdadeira, fruto não de uma falsa espiritualidade, forçada e que não é mais que cela para ódios e mágoas, mas efeito de um andar constante com Deus, de muita oração, de muito arrependimento, que anula as dívidas e ganha créditos do Senhor e criador do universo, que dá para eles sua aprovação como herança maior neste e no outro mundo. 
      Mas enganam-se os que acham que os mansos são indiferentes e reprimidos, em seus corações há uma averiguação constante da realidade, clamam por justiça, mas não qualquer justiça, não pelas suas justiças, mas pela justiça de Deus, e por isso, por confiarem mais em Deus que em suas próprias causas, não andam com fome e sede de honra e atenção, mas estão satisfeitos com a vontade maior de Deus.
      Contudo, o cristianismo “raiz” não faz justiça a um sendo implacável com o outro, a justiça de Deus tem o contrapeso de sua misericórdia, se uma leva todos a colherem os frutos de suas colheitas, a outra reconsidera a lei do “olho por olho, dente por dente” com um efeito mais brando, onde se tem forças para tentar de novo e acertar no amor de um Deus que não quer que nenhum se perca, mas que todos se salvem. 
      Mais que só provar um privilégio, os que provam a misericórdia de Deus são misericordiosos com os outros e por isso alcançam corações limpos e mentes leves, que representam a mais filtrada santidade, e nisso, em tratar o outro com o mesmo amor que recebeu, existe a chave para “ver” a Deus, para conhecer e viver os mistérios espirituais, fechados aos que cobram de homens e não confiam no Senhor. 
      Jesus só ensina sobre os pacificadores no final das bem-aventuranças, porque sem humildade, quebrantamento, mansidão, misericórdia e santidade não se pode lutar pela paz, qualquer carência dessas virtudes nos colocará em conflito com nós mesmos que projetamos em conflitos com os outros, mas filho de Deus não é o que toma espada e luta contra o mundo por sua fé, mas o que pacifica a si próprio.
      O pacificador sofrerá perseguição, não será entendido, mas não por qualquer egoísmo, ainda que dissimulado de interesse divino, mas porque de fato luta contra si mesmo para ser luzeiro de Deus nos mundos, no físico e no espiritual, ah, meus queridos, quantos de nós de fato temos o privilégio de sofrer pelos interesses de Deus e não pelos nossos? quem experimenta isso entendeu o que é o Cristo “raiz”. 

José Osório de Souza, 25/02/2021

VIII

      “O ímpio deseja a rede dos maus, mas a raiz dos justos produz o seu fruto.” Provérbios 12.12

      Se perguntarmos a um crente, devidamente doutrinado no “evangeliques”, por que ele vai à igreja, ele responderá, “por causa de Deus, não por causa dos homens”, e ele chamará de imaturos os que saem de igrejas por se desentenderem com homens. Contudo, vou dizer algo que vai além desse entendimento, apesar de não parecer, não devemos estar em igrejas tendo como primeiro motivo conhecermos a Deus. Para conhecermos Deus não precisamos de igrejas, o raciocínio é o contrário, e os que buscam igrejas, querendo achar nelas a verdade absoluta sobre Deus, são justamente os que se desentendem com homens e saem de igrejas tristes com Deus, frustrados com religião, porque buscaram nela algo que ela não pode entregar. Tronco e galhos não libertam e submetem homens ao homem, só a raiz liberta e conduz a Deus. 
     Por quem então estarmos em igrejas? Pelos homens, pela vida social que temos nelas com semelhantes, e nós, homens, precisamos de amizades, de troca de experiências com pares. Crescemos em Deus com isso? Sim, pois pomos em prática o que cremos, e aprendemos sobre Deus também com as experiências de outros homens, mas se já amadurecemos um pouco entendemos que Deus independe de igrejas. Podemos perceber que as pessoas que conseguem ficar por mais tempo em uma determinada igreja são justamente as que têm laços sociais mais fortes nelas, e que não sofrem muito com incoerências morais. Com o tempo o homem sempre se revela, a paixão inicial, que mesmo na vida espiritual e em religiões limitadas pode cooperar para que haja mudanças morais nas pessoas, com o tempo perde a força e a realidade se impõe.
      Quando finda a paixão, o homem precisa achar um meio termo para poder conviver com sua realidade e com os ideais morais da igreja em que congrega. Os sinceros percebem que o que é ensinado não lhes permite realizar o que é cobrado, assim passam por um processo onde podem até tentar mudar a igreja, mas não conseguindo, ninguém muda tronco e galhos, saem dela. Se ainda estiverem iludidos com religião continuarão buscando em outras igrejas o ideal que não acharam, até que cheguem a uma conclusão, que fará que se afastem de vez de igrejas ou que busquem a Deus sem os véus. Se buscarem a Deus acharão coerência entre teoria e prática, encontrarão forças em Deus para viverem a vida que Deus quer eles vivam, não os homens, poderão retornar a conviver com igrejas, mas sem ilusões, para cultivarem vida social. 
      Quem se acomoda com religião dizendo a si mesmo que no mundo as coisas são assim mesmo, que nada é perfeito, que devemos louvar a Deus nas igrejas apesar disso, sem nos incomodarmos com homens? Aquele que, como diz o versículo inicial, “deseja a rede dos maus”, esse nem verá uma rede que prende, mas uma zona de conforto que abriga, no final o ser humano sempre se alia a semelhantes, “frequências iguais” se misturam e se confundem, não existe mais individualidade, só rebanho. “Mas a raiz dos justos produz o seu fruto”, esse texto não diz que o justo é um bom religioso, que é honrado por pares em igrejas, não diz que ele conhece as doutrinas de sua religião, mas diz que sua raiz, sua essência, dá frutos. Que adianta aparência de religiosidade se sabemos que em nossas vidas na prática não há virtudes morais? 
      No céu seremos avaliados pelos frutos, não por termos sido membros fiéis por anos dessa ou daquela igreja, e o cristianismo “raiz” permite isso, dar frutos, contudo, entendamos certo. Necessitamos de igrejas, sim, principalmente no início de nossas jornadas, para estabelecermos referências cristãs e conhecermos as humanidades que existem nas tradições, que não funcionam pois são coisas de homens, não de Deus. Depois disso devemos aprender a andar sozinhos e fazer nossas escolhas, infelizmente, é justamente nesse ponto, quando se está preparados para fazer escolhas, que muitos se tornam só prosélitos de religiões. Muitos, com medo da vida espiritual adulta, querem ser crianças espirituais para sempre, por isso o cristianismo “raiz” é preterido em nome de dogmas, sacramentos e liturgias de tronco e galhos. 

IX

      “E, eis que cedo venho, e o meu galardão está comigo, para dar a cada um segundo a sua obra.” “Eu, Jesus, enviei o meu anjo, para vos testificar estas coisas nas igrejas. Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã.” Apocalipse 22.12, 16
 
      Alguém pode perguntar, não entendendo a avaliação que fazemos de igrejas nesta reflexão, “mas e todos os textos bíblicos que falam sobre a necessidade de nos congregarmos?” A igreja do Cristo é a reunião de todos os seres humanos que ouvem a voz do Espírito Santo, não é o hall de membros de uma instituição, que frequentam templos físicos, igreja é conceito espiritual, não é físico. É óbvio que tronco e galhos, tradições religiosas de homens, dão ênfase à necessidade de ligação de homem com instituição terrena para que haja aprovação divina, isso é conveniente para que esses mantenham seus poderes sobre homens neste mundo. Por isso, como refletimos antes, o cânone bíblico foi construído, mas isso não é o que ensinou Jesus no evangelho “raiz”, ele fala de uma igreja espiritual ligada a Deus. 
      É essa igreja espiritual que estará mais próxima de Deus na eternidade. Sim, é gostoso demais achar neste mundo parte dessa igreja reunida em um templo, louvando a Deus, estudando a Bíblia, compartilhando o evangelho com o mundo, contudo, é preciso que acordemos para o lado humano de muitas igrejas, ainda que falem de Deus e de Jesus, para avaliarmos até que ponto elas nos aproximam de fato do Deus Altíssimo. Por mais agradável que seja a vida em uma igreja cristã, se ela não representar o melhor de Deus para as nossas vidas não estaremos em paz, não seremos libertos, não seremos plenamente felizes sendo só membros de igrejas. Isso é melhor ou pior? Se querem saber, não importa, vejo, contudo, que a vida parece ser bem mais fácil para aqueles que se satisfazem em ser só cristãos igrejeiros.
      Não posso ser irresponsável, desconsiderando o amor de Deus com os homens, que chama cada ser humano para desempenhar uma chamada específica, e permite que o homem tenha no mundo oportunidade para ser feliz. Para muitos, a melhor coisa que eles têm a fazer, é se filiarem a igrejas e ficarem bem quietinhos nelas, assim, não se escandalize com a reflexão “Raiz, tronco ou galhos?”. Vou dizer novamente o que já disse, Deus abençoa os homens, apesar das igrejas, nas igrejas, não exclusivamente através delas, assim como Deus ensina sobre sua vontade aos homens pela Bíblia, apesar dos contextos culturais e históricos diferentes nos quais seus textos foram escritos, em relação à humanidade do século XXI. O que importa é estarmos em paz com Deus e conosco, e para isso tanto faz igreja ou religião. 
      Mas entender sua chamada pessoal não significa se afastar de convívio com igreja, significa que uma vez que você tenha visto o que você é e crê, e que isso não bate com o que muitos púlpitos pregam, pode ser mais coerente para você ter uma relação mais distante, respeitando tua individualidade espiritual. O que não podemos é ser hipócritas, só para termos apoio de gente de igreja, hipocrisia é pior que ignorância. Por outro lado, outro triste motivo de permanecermos em igrejas, é que luz só é útil nas trevas, e infelizmente existem trevas dentro de grupos cristãos tanto quanto em outras religiões ou na ausência delas, no chamado mundo secular. Talvez estejamos chegando num momento quando Deus chama profetas, como era de fato no antigo testamento dentro da nação de Israel, para exortarem os de dentro, não os de fora. 
      Não é fácil ser cristão “raiz”, principalmente convivendo socialmente com igrejas, raiz não aparece, e vida espiritual genuína é discreta, mesmo secreta, dá trabalho resistir às tentações da carência e da vaidade, que nos levam a exibir nossa falsa espiritualidade nos púlpitos, falsa porque a verdadeira não tem necessidade de ser exibida, por isso tantos acham que têm chamadas para pregador e mestre quando são apenas seres inseguros querendo aparecer e receber aplausos. Contudo, talvez seja necessário, mais até que evangelizar o mundo, sermos no momento atual vivas raízes para troncos e galhos secos, quando, principalmente no Brasil, muitos cristãos acham ter alcançado a posição mais alta do cristianismo no mundo usando ferramentas do mundo, não espirituais, instrumentos de tronco e galhos, não da raiz.

José Osório de Souza, 26/02/2021