20/10/23

Paz no real, luz no mental (2/2)

      “E tu, meu filho Salomão, conhece o Deus de teu pai, e serve-o com um coração perfeito e com uma alma voluntária; porque esquadrinha o Senhor todos os corações, e entende todas as imaginações dos pensamentos; se o buscares, será achado de ti; porém, se o deixares, rejeitar-te-á para sempre.” I Crônicas 28.9

      Vamos definir imaginário como algo que nasce dentro de nós, sem auxílio de ser humano ou de espírito, e tenha certeza, somos totalmente capazes de gerarmos o mal com total autonomia. Se o mal real, que vem de fora, acha em nossa imaginação terra fértil para grudar em nós e dar seus frutos, nós mesmos podemos plantar e colher o mal nessa terra. A imaginação humana, contudo, é muito mais que capacidade para criar arte, sonhar, gerar prazer e efervescer dores, é ferramenta para comunicação com o plano espiritual. Na eternidade seremos espíritos livres, esses são nossas consciências, mentes e sentimentos, libertadas das limitações de espaço, tempo e matéria, podendo se comunicar e se mover na velocidade do pensamento. 
      Quando dizemos, “ah, isso é bobagem, é coisa da minha cabeça, só imaginação”, podemos cometer um erro. O que mais nos faz sofrer se passa dentro de nossas mentes, muitas vezes sem ninguém saber, mas o que mais nos dá prazer também pode existir só dentro de nossas cabeças, e pode ser melhor que muita realidade. Deus não precisa de nossas palavras, basta uma prece mental, focada, verdadeira, e ele pode mudar nossas vidas. Por outro lado basta um pensamento errado, uma interpretação equivocada de uma palavra, de um gesto, de uma atitude, e colocamos tudo a perder. A vida é mental, depois se manifesta na realidade material, quem já não se sentiu acima da terra, como um espírito levitando sobre a realidade? 
      Estamos aqui para pôr os pés no chão, e ainda que o imaginário nos eleve ao espiritual eterno, quem vive só de imaginação aliena-se e pode até endoidecer. O melhor da vida são as pessoas e com elas, pelo menos a princípio, nos compartilhamos com palavras em som audível e com ações físicas, ainda que muitas vezes tenhamos uma comunhão quase que espiritual com alguns, onde não se necessita de palavras ou de toques, só de olhares. Não fujamos da realidade, o sábio será humilde para achar suas convicções, mas também para respeitar as convicções dos outros, assim dará e receberá, fará parte do imenso sistema do universo onde é uma engrenagem importante para que a humanidade ache paz no real e luz no mental. 
      Talvez um título melhor para esta reflexão fosse “real ou mental”, já que nem tudo que existe em nossa mente é imaginação e mentira, mas pode ser tão real quanto aquilo que ocorre no mundo material. Muitas vezes aqueles que mais negam o espiritual são os que mais usam o mental, e muitos desses são os que mais adoecem psicologicamente. Mas assim como nossos corpos precisam processar uma respiração, inspirando o que é necessário e expirando o que é inútil, e isso não inclui só oxigênio, mas também alimentos sólidos e líquidos, nossa mente também precisa respirar. Não basta assimilarmos e processarmos tudo, temos que nos livrar de males, isso, contudo, não podemos fazer sem íntima interação com o Espírito Santo de Deus. 
      Buscar a Deus é respirar espiritualmente, isso mantém asseado nosso espírito, que ventila e limpa nossa mente, que produz sentimentos elevados e que finalmente dá saúde a nosso corpo, mantendo-o longe de vícios e obsessões. Mas se respirar com o corpo é algo que fazemos sem pensar, já que se pararmos de respirar morremos, respirar espiritualmente é escolha que Deus nos dá, e muitos tentam substituir isso com experiências intelectuais e artísticas. Como sempre digo aqui, experiências religiosas podem levar a Deus, mas não são a presença de Deus, podemos estar mortos espiritualmente mesmo sendo religiosos sinceros e fiéis. Deus é esprito e é experimentado espiritualmente, isso é conhecimento da verdade e da vida eterna.

Leia na postagem de ontem
a 1ª parte desta reflexão

19/10/23

Real ou imaginário? (1/2)

      “Com que purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra. Com todo o meu coração te busquei; não me deixes desviar dos teus mandamentos. Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti.” Salmos 119.9-11

      O que é real e o que é imaginário em nossas vidas? Talvez tanto faça, quando nos faz sofrer. O que nos faz sofrer é o mal, e esse pode ser enfrentado de maneiras diferentes, dependendo se é real ou imaginário. Vamos definir real como algo que vem de fora para dentro, um mal exterior que nos atinge e que nós retemos. Para entendermos isso precisamos aceitar que somos atacados por setas do mal o tempo todo, críticas e seduções dos seres humanos, acusações e tentações de espíritos malignos, ações de seres humanos influenciados por espíritos malignos, enfim, quando dizemos exterior pode ser tanto material quanto espiritual. Contudo, não é a existência do mal que nos faz mal, é o acolhimento que damos ao seu ataque. 
      Se estivermos íntegros pelo Espírito Santo, limpos, humildes e crentes, a seta chegará a uma distância mínima de nós, mas não nos tocará nem permanecerá em nós. Acolhemos o mal quando permitimos que se ligue a nós, assim nos tornando não só atacados pelo mal, mas atacantes, já que quem recebe o mal alheio entra em comunhão com a intenção daquele que lançou o mal. O mal quer companhia, só sobrevive quando um ser o recebe, se isso não ocorrer se desfaz ou volta-se a quem o lançou. O mal é uma mentira, já que a verdade, ainda que possa nos deixar a princípio desconfortáveis, nos faz bem se tivermos humildade para aceitá-la. O mal inventa algo que não existe e tenta nos convencer que existe usando nossa imaginação.
      Quando cobiçamos algo que não é nosso, damos legalidade para o mal tomar nossa mente fazendo com que o que foi cobiçado exista em nós como nossa propriedade. Quando desejamos sexualmente alguém com quem não temos direito de compartilhar intimidade física, se retermos o mal acharemos com o tempo que aquela pessoa nos pertence, tanto quanto nos pertence a intimidade consentida de alguém unido a nós por uma aliança legítima. O mesmo ocorre quando vemos numa loja um celular que não temos condições de comprar, de longe até sabemos que não é para nós. Mas se entrarmos na loja, pegarmos o aparelho, acessarmos seus recursos, acharemos que é nosso e o compraremos, mesmo contraindo dívida inadequada.
      Não somos refreados por leis, só saber que algo não é nosso e que não podemos ter não é suficiente para não tomarmos algo como nosso. Uma lei não impede nossa cabeça de imaginar, regras não freiam nossas ideais, aliás, tudo pode passar e deixar de existir, menos uma ideia. Por isso se diz que o revolucionário não o é pelas ações que executa contra uma realidade, mas pela ideia que tem, ainda que seja assassinado sua ideia pode sobreviver nas mentes de outras pessoas. Assim verificamos a eficácia do evangelho de Jesus sobres as leis mosáicas, ele não julga as consequências, mas enfrenta as causas, limpando, curando e mudando o interior dos seres humanos, onde imaginações são criadas e mantidas. 
      A proteção mais eficiente não é a da boca, dos olhos, dos ouvidos, dos pés e das mãos, mas interior, do que pensamos e sentimos. Mente e coração bem ocupados não deixam espaço para instalação do mal, Deus é a única presença que nos preenche e satisfaz por inteiros e nos protege do mal. Contudo, não nos enganemos, aprisionar o corpo em templo, manter a boca cheia de rezas, orações e louvores, distanciar olhos, ouvidos e mãos do mundo e dos homens, necessariamente não traz o Espírito Santo para dentro de nós. A vontade de Deus às vezes pouco tem a ver com religião, igreja e doutrina. Deus se experimenta com busca, que conhece sua vontade, e com obediência, que pratica sua vontade, isso entrega paz ao humilde.

Leia na postagem de amanhã
a 2ª parte desta reflexão

18/10/23

Parte de algo maior

      “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.Gálatas 5.25

      Siga a orientação do Espírito de Deus, seja parte de algo maior que você, assim fará a coisa certa e terá paz. Nunca estamos sós, ninguém está sozinho, ainda que não creia no mundo espiritual e nem confie em Deus. Somos todos parte de um eterno ciclo da vida, tanto no plano material quanto no plano espiritual. O que outros fazem tem influência sobre nós, o que fazemos tem influência sobre os outros. Precisamos de todos assim como todos precisam de nós. Essa interação nem sempre nos é consciente e nem precisa ser, necessário é estarmos conectados a Deus, se isso ocorre seremos úteis aos objetivos, providências e mistérios do Altíssimo. 
      Alguns têm o privilégio de saber que estão sendo usados, outros são usados ainda que não saibam, mas muitos são usados mesmo que não queiram. Importa que Deus saiba, e eis outra virtude grandiosa e exclusiva de Deus se manifestando, o sincronismo com que ele administra os movimentos dos universos e dos seres, tanto no plano material quanto no espiritual, fazendo que tudo funcione em harmonia e com equilíbrio. Alguns podem dizer, “num mundo com tanta injustiça e violência, onde há sincronismo, harmonia e equilíbrio?”. Pois há, só não há se olharmos sob o ponto de vista de seres presos à matéria durante curtas jornadas aqui. 
      Há coisas que sabemos, há coisas que não sabemos e podemos saber se merecermos e nos prepararmos, há coisas que não sabemos porque não queremos saber, e há coisas que ainda que queiramos saber nunca saberemos. Por quê? Deus sabe. Mas todos nós podemos buscar a Deus e nos colocarmos em profunda comunhão com ele para sabermos sua vontade num determinado assunto, que atitude tomarmos, que palavra darmos, que escolha fazermos. Por exemplo, ainda que devamos amar a todos, só intercedamos por quem Deus manda, e às vezes pessoas próximas a nós Deus orienta não nos conectarmos espiritualmente com elas. Por quê? Deus sabe e utiliza isso. 
      Somos viciados em ativismo, isso procede por um motivo legítimo, neste mundo precisamos trabalhar e produzir para nos mantermos vivos. Contudo, na maioria das vezes, vemos como trabalho só o material, e justamente por fazê-lo nos achamos no direito de não termos que fazer o outro trabalho, o moral, que fará diferença em nossa existência puramente espiritual na eternidade. Se trabalhamos uma semana inteira, achamos que temos direito a algum lazer e prazer na sexta-feira à noite, ainda que sujos e vãos. Deus usa tudo para nos conduzir à sua santa luz, mesmo o nada, para ele esperar é tão útil quanto fazer, retroceder é tão necessário quanto avançar.
      Se Deus não usa para construir, usa para destruir, e ambas as coisas têm propósito. Bem-aventurado o que é usado para construir valores morais, não só materiais, em sua própria existência e na do outro. Termos consciência que fazemos parte de algo maior mostra-nos o sentido da vida, assim podemos ser felizes mesmo fora de palcos e holofotes, mas no escuro exterior, sentados na plateia, aplaudindo show dos outros. Bem-aventurado quem honra quem honra merece e não processa qualquer grau de inveja e vingança. Nossa maior vocação é ser emanação de luz de Deus sobre os outros, a luz interior maior tem quem a reflete de cima para baixo.

17/10/23

O Senhor é o que tira a vida e a dá

      “O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz tornar a subir dela. O Senhor empobrece e enriquece; abaixa e também exalta. Levanta o pobre do pó, e desde o monturo exalta o necessitado, para o fazer assentar entre os príncipes, para o fazer herdar o trono de glória; porque do Senhor são os alicerces da terra, e assentou sobre eles o mundo. Os pés dos seus santos guardará, porém os ímpios ficarão mudos nas trevas; porque o homem não prevalecerá pela força.I Samuel 2.6-9

      Podemos aumentar o número de nossos dias na Terra? Achamos que sim, administrando bem nossa saúde, agindo com sabedoria nas escolhas, tendo cuidado no mundo, não sendo irresponsáveis e viciados nos apetites do corpo, praticando vidas morais equilibradas. Mas de verdade, será que é tudo isso que decide nosso tempo no plano material? Não, não mesmo! É a ciência? Pobres os que apostam todas as fichas nela. São sábios por não a negarem? Sim, ciência é bênção que Deus nos dá através de nossa própria inteligência intelectual e de nosso trabalho físico, mas tolos os que a endeusam acima do Deus invisível, espiritual e eterno. Quando Deus decide encerrar nosso tempo aqui, absolutamente nada pode impedir. 
      O ponto é um: qual nossa principal razão de existir? Todos somos surpreendidos na vida, mas aqueles que acham que vivem no mundo por razões materiais serão ainda mais surpreendidos, por isso sofrerão muito mais e possivelmente no pior momento de suas existências terrenas, no final. Alguns acham que vida vitoriosa é prosperidade material, outros acham que é lucidez intelectual, e outros ainda pensam que é devoção religiosa, mas todos esses podem ser surpreendidos e sofrerem, para terem que acordar e entenderem a razão principal deles existirem no mundo. A razão é espiritual, que tem como efeito uma evolução moral, mas não uma moralidade humana e egocêntrica, mas humildemente conectada às virtudes do Altíssimo. 
      Por achar que vida de qualidade superior reside só na moralidade, muitos até controlam suas paixões, cuidam de seus corpos, fazem meditações, mas se essa moralidade não for efeito de uma conexão espiritual verdadeira com o Deus verdadeiro, pouco valerá, se é que será possível, e se for, não permanecerá. O que é vida? Não é boa saúde física, nem moralidade limpa, vida é conhecer e agradar a Deus, como diz o versículo tema do blog “Como o ar que respiro”, João 17.3. É isso que negam os que confiam só na ciência, que sendo trabalho humano leva o ser humano a idolatrar a si mesmo. Sim, temos valores, vencer na vida é conhecer e praticar esses valores, mas eles são parte de um valor maior, Deus. Viver é voltar para Deus. 
      Morrer é fugir de Deus. Muitos têm boa saúde e estão mortos em infernos ainda aqui, outros morrem no corpo e despertam para a vida eterna num céu. Para que entendamos que o principal é nos ligarmos a Deus como seus amigos, ele mexe nas variáveis do universo, empobrece e enriquece, adoece e cura, humilha e exalta. “Os pés dos seus santos guardará, porém os ímpios ficarão mudos nas trevas, porque o homem não prevalecerá pela força”, aceitemos isso! Por  isso são os fracos que mais conhecem a Deus, não os fortes, são os pobres que mais dependem dele, não os ricos, são os de mente aberta que mais creem nele, não os racionais. Quando entendemos isso Deus nos leva em paz, no melhor momento, para acordarmos no céu.

16/10/23

Vá até o fim

      “Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo.Mateus 24.13

      Como sabermos se fomos até o fim? Não sabemos. Muitos acham que salvação e céu na eternidade estão numa decisão inicial que fazem por Cristo, mas não estão no início, estão no final. Não é a fé do início que nos define, mas as obras do fim. Religiões de homens tentam nos prender a elas, para nos manipularem e usarem, assim a religião cristã mais poderosa batiza bebês, as religiões protestantes marcam os seres humanos com costumes e com carteirinhas de membro. Entretanto, quem sabe a provação que terá no final de sua vida, quando não valerá religião, nem anos obedecendo liturgias, sacramentos e dogmas, que porá em dúvida uma vida de devoção, para tirar do ser uma oração de aceitação humilde da real vontade de Deus?
      Já vi fortes castelos desmoronarem, as torres de vigília mais altas, nas quais os homens achavam poder olhar tudo para estarem preparados para qualquer eventualidade, caírem por terra. Então, em meio aos escombros, contemplei um velho e uma velha, ainda com os dedos cheios de anéis de ouro e diamantes, e com as cabeças embriagadas com as memórias das festas, onde filhos e netos se alegravam, achando-se protegidos e inatingíveis. A vida lhes surpreendeu, e ainda que o universo os avisasse antes, pois o universo sempre avisa, eles não deram atenção, se acharam prontos antes da hora, não perseveram até o fim. Eles tinham religião, criam em Deus, mas dentro deles nunca foram humildes, confiavam mais em si mesmos. 
      A última oração é a que você fez no mínimo nas últimas vinte e quatro horas, que não se ponha o Sol uma única vez sem você ter tido um encontro real com Deus, num diálogo que nem precisa ser longo, mas em que você mais ouviu que falou, no final entendeu a voz do Espírito Santo e disse a Deus exatamente o que ele queria ouvir de você. Não pense que é fácil andar com Deus, por isso muitos desistem, preferem acomodar-se à religião, a experiências antigas que tiveram com Deus, que foram verdadeiras e úteis um dia, mas que não só mais hoje. Nossa relação com Deus precisa ser viva, e enquanto neste mundo, presos a corpos materiais, ela precisa ser renovada todos os dias para se manter viva, e assim até o fim. 

15/10/23

Tu és o Deus que vê

      “Então Agar deu ao Senhor, que havia falado com ela, o nome de "Tu és o Deus que vê". Porque ela dizia: "Neste lugar eu olhei para Aquele que me vê!"Gênesis 16.13

A história de Agar 
Gênesis 16 (versão Nova Almeida Atualizada)

      “Ora, Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos. Mas tinha uma serva egípcia, chamada Agar. Então Sarai disse a Abrão: — Eis que o Senhor me impediu de dar à luz filhos. Tome, pois, a minha serva; talvez assim eu possa ter filhos por meio dela. E Abrão concordou com o plano de Sarai. Então Sarai, mulher de Abrão, tomou Agar, sua serva egípcia, e a deu por mulher a Abrão, seu marido, depois que ele já estava morando durante dez anos na terra de Canaã.v. 1-3

      A história de Abraão, que no texto de Gênesis 16 ainda era chamado de Abrão, é conhecida. Já velhos e sem filhos, ele e a esposa Sara, no texto de Gênesis 16 ainda chamada de Sarai (leia sobre a mudança dos nomes em Gênesis 17.5 e 15), receberam de Deus a promessa que seriam pais de um povo grande e poderoso, assim como a ordem de saírem de sua terra natal e irem para um novo lugar (Gênesis 12.1). Como a promessa lhes parecia demorar para ser cumprida, tentaram dar uma ajuda ao plano original de Deus, Sara ofereceu e Abraão aceitou a serva egípcia de Sara, Agar, para gerar um filho. Isso era um costume na época, a necessidade de se ter filhos homens para herdarem e administrarem os bens, podia usar esse recurso. 

      “Ele teve relações com Agar, e ela ficou grávida. Ao saber que estava grávida, Agar começou a olhar com desprezo para a sua senhora. Então Sarai disse a Abrão: — Seja sobre você a afronta que é feita a mim. Eu mesma pus a minha serva em seus braços; ela, porém, vendo que engravidou, me olha com desprezo. Que o Senhor julgue entre mim e você. Abrão respondeu a Sarai: — Você continua a ter controle sobre a sua serva. Faça com ela o que melhor lhe parecer. Então Sarai a humilhou, e Agar fugiu da presença dela.v. 4-6

      Se somos fracos para viver o melhor de Deus, estaremos ainda mais suscetíveis às fraquezas quando estivermos vivendo fora do plano original de Deus, por isso sempre melhor para nossas vidas. Agar, ao engravidar, “se achou” e desprezou Sara, Sara por sua vez se ressentiu e reclamou ao marido sobre a afronta que estava recebendo. Talvez o erro nem tenha sido o casal usar o recurso da serva gerar um filho, mas com certeza o erro foi não crerem que Deus de alguma forma cumpriria o que prometeu. Abraão jogou a responsabilidade para Sara, para nós hoje essa atitude pode soar covarde, mas parece que a serva estava prioritariamente sob a autoridade de Sara. Sara foi cruel, humilhou Agar e essa fugiu. 

      “Quando o Anjo do Senhor a encontrou junto a uma fonte de água no deserto, junto à fonte no caminho de Sur, perguntou-lhe: — Agar, serva de Sarai, de onde você vem e para onde vai? Ela respondeu: — Fujo da presença de Sarai, minha senhora. Então o Anjo do Senhor lhe disse: — Volte para a sua senhora e sujeite-se a ela.v. 7-9

      Interessante o lugar onde o Anjo do Senhor achou Agar, junto de uma fonte de água, vemos nisso a mão de Deus abençoando Agar. Quem é esse Anjo do Senhor, um ser espiritual discernido pela escrava ou um servo de luz manifestado no formato físico? Isso ocorre tanto na Bíblia, mas ainda assim hoje nos fechamos para o mundo espiritual. Enfim, a ordem de Deus a Agar foi, volte para sua senhora e sujeite-se a ela. Deus não se posiciona contra um costume da época, assim como não vemos em outros textos bíblicos qualquer oposição a patriarcado, papel inferior da mulher ou escravatura. Mas eu creio que mesmo nesses costumes, hoje considerado opressores, havia seres humanos justos que os viviam, mas com temor a Deus. 

      “E o Anjo do Senhor disse também: — Aumentarei em muito a sua descendência, de maneira que, de tão numerosa, não poderá ser contada. E o Anjo do Senhor continuou: — Você está grávida e dará à luz um filho, a quem chamará Ismael, porque o Senhor ouviu o seu grito de aflição. Ele será, entre os homens, como um jumento selvagem; a sua mão será contra todos, e a mão de todos será contra ele; e habitará diante de todos os seus irmãos.v. 10-12

      Deus faz uma promessa maravilhosa à serva, por quê? Por vários motivos. Primeiro o filho de Agar seria filho de Abraão, um homem com uma promessa de Deus, ainda que alterada pelos homens, a promessa de Deus se cumpria por Agar e o filho Ismael. Deus não nega a si mesmo, sua palavra nunca passa e sempre se cumpri. Mas esse acontecimento pode ser visto por mais de uma ótica, e é em outra ótica que entendemos um outro motivo de Deus fazer a promessa a Agar. Deus não amava menos a Agar que amava a Sara, ainda que tivesse plano diferente para ela, assim Agar também tinha direito à honra, ainda que não fosse esposa de Abraão e tenha sido arrogante com Sara, que teve dificuldade para engravidar. 

      “Então Agar deu ao Senhor, que havia falado com ela, o nome de "Tu és o Deus que vê". Porque ela dizia: "Neste lugar eu olhei para Aquele que me vê!" Por isso, aquele poço se chama Beer-Laai-Roi. Fica entre Cades e Berede. Agar deu à luz um filho a Abrão; e Abrão chamou de Ismael o filho que Agar lhe deu. Abrão tinha oitenta e seis anos, quando Agar lhe deu à luz Ismael.v. 13-16

      "Tu és o Deus que vê", forte essa constatação de Agar. Deus olha para todos os seres humanos, em todas as posições e tempos, e para todos tem uma vontade boa para realizar. Diz-se que de Ismael descenderam os árabes, povo que no decorrer na história foi poderoso, rico e vasto, e muitos deles opositores da descendência de Isaque, o filho que Sara geraria de Abraão, do qual sairia a nação de Israel, os judeus atuais. Se Sara e Abraão tivessem esperado em Deus, talvez não tivessem criado um problema enorme para sua descendência oficial, mas Deus parece nada ter a ver com isso, cumpriu o que prometeu, ainda que em dois homens, não em um. Deus respeita nossas escolhas, mas mais que isso, Deus as usa. 

José Osório de Souza, 17/04/2022

14/10/23

Testemunho de fé

      “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem.Hebreus 11.1

      Em certo momento de minha vida eu mantinha um compromisso que ajudava minha vida financeira, me entregava um valor que minha família não podia viver sem, contudo, já estava sentindo que o compromisso não era bom, não me trazia paz, que Deus queria que eu me livrasse dele. Assim, me pus a orar para que houvesse um outro jeito de ter aquele valor, sem precisar estar preso a uma aliança inadequada. Eu sabia que Deus poderia me responder, que havia um jeito melhor de ter aquela renda, que me deixaria em paz e que agradaria ao Senhor. Eu tinha certeza que Deus estava ouvindo minha oração e que a resposta estava a caminho. 
      Contudo, como sempre ocorre em nossa vida com Deus, o objetivo principal do Senhor não era me dar um vida financeira confortável e correta, mas era desafiar minha fé, dessa forma senti do Espírito Santo que deveria quebrar o tal compromisso, mesmo antes de ter uma outra maneira de ter uma renda com o mesmo valor. Tive medo até de compartilhar o assunto com minha esposa, já aprendi que as pessoas possuem níveis diferentes de fé, assim como responsabilidades diferentes. Aquele valor era responsabilidade minha trazer para a casa, não dela, ela também não estava pronta para entender uma decisão de fé naquele assunto. 
      Foi uma das decisões mais difíceis de minha vida, deixar uma zona de conforto que tinha há anos, mas que não sendo o melhor de Deus para minha vida era muito mais algo que me mantinha preso a homens, que uma providência do Senhor para me dar liberdade e dignidade na vida. Mas eu fiz, pela fé, me livrei do compromisso, da aliança que tinha com determinada pessoa, e esperei em Deus. Eu ainda tinha algumas reservas guardadas para me assegurarem por um tempo, mas antes que acabassem algo aconteceu, um negócio me garantiu retorno financeiro que substituiria e acima o valor que o compromisso quebrado me dava. 
      Essa provisão, que muitos podem chamar de milagrosa, viria de um jeito ou de outro? Sim. Se eu tivesse esperado para quebrar o compromisso e parar de receber o valor só quando o negócio ocorresse e a provisão chegasse, poderia parecer aos olhos de alguns mais sábio? Sim. Mas seria uma decisão de fé, tomada com base em confiança em Deus e na obediência de ordem do Espírito Santo? Não. Para quem anda certo e trabalha o necessário, nunca falta provisão material nesse mundo, mesmo para o religioso burocrático, para o hipócrita, e até para o ateu, mas esses não aprendem lições espirituais, as mais importantes.
      Como se diz, “crianças, não façam isso em casa sem supervisão de adultos”, assim não tome esse testemunho como regra, poucas vezes na vida senti tal orientação de Deus, muitas vezes o Senhor orientou o que parece mais normal, não troque o certo pelo incerto. Contudo, nessa ocasião Deus queria me dar duas bênçãos, primeiro uma libertação de um compromisso que não fazia bem nem a mim e nem à pessoa com a qual eu tinha o compromisso, o encerramento da aliança foi bom para nós dois. Em segundo lugar Deus queria que eu crescesse na fé, e na fé só se cresce praticando fé, não há outro jeito, esse jeito requer coragem. 
      Fé é o grande mistério que provamos em nossas curtas passagens neste mundo, chave para experiências com o invisível, com a eternidade, com Deus, com a verdade mais profunda da existência. Materialistas, ateus e mesmo cristãos racionais,  provam as provisões de Deus e alguns até glorificam o Senhor por isso, mas sem fé perdem o melhor. Podem ser experientes, estudados e esforçados no mundo, mas são crianças espirituais, jogam fora o tempo que têm neste plano para crescerem. Por que deve ser assim, acreditar no que não se vê e ter certeza do que ainda não ocorreu? Deus sabe, mas saiba que fé é a aventura mais bela da vida. 

13/10/23

Dores do justo

      “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.João 16.33
 
      “O ímpio tem muitas dores”, e o justo tem mais dores ainda, “mas àquele que confia no Senhor a misericórdia o cercará” (Salmos 32.10). Desculpe-me ter feito uma adição ao texto bíblico, mas penso que ela está implícita nele, senão pode parecer que o justo não tem problemas porque Deus o protege deles. O ímpio quando tem uma dor, e não estar perdoado por Deus é dor que leva a todas as outras, ele vai para a mesa de um bar, bebe todas, come um monte, fala bastante bobagens com amigos, depois vai para a casa, tem uma relação sexual pela metade, pois embriagado ninguém está íntegro, e dorme, muitas vezes só depois de “devolver” a comida no vaso. Isso parece exagerado? Mas é realidade de muita gente no mundo. 
      O justo, quando dói, procura pecado não confessado e recebe perdão, de Deus, de si mesmo, dos outros, se não há pecado ele procura obra do bem que não está fazendo para fazer, que pode ser o que o está deixando vazio e com espaço para sofrer desnecessariamente. Contudo, ainda que andando certo, em amor e vigilância de santidade, o justo sofre, é o que disse Jesus no texto bíblico inicial, no mundo tereis aflições, e constantes. Quando estamos bem ligados a Deus somos mais sensíveis, mas nunca imunes ao pecado. Iras, invejas, sensualidades, mágoas e ansiedades nos provocarão até nossa última inspiração de ar neste mundo, mas construir a melhor eternidade em nós é lutar contra as obras da carne e perseverar em vencer. 
      Muitos conquistam vitória na vida profissional e na moral, mas desistem antes do tempo, assim quando as tendências más lhes vêm, eles as resolvem do jeito errado, o jeito não espiritual, que não é o jeito de Jesus. Se sentem mágoa, ao invés de perdoarem quem os magoou, jogam a culpa da mágoa nesse. Se sentem inveja, ao invés de abençoarem o invejado e aceitarem que esse tem justo direito de estar desfrutando da prosperidade que causou a inveja, desmerecem os méritos do invejado para deslegitimarem para si mesmos a inveja, já que se aceitarem a inveja admitirão que o invejado merece ser invejado e lhes é superior. Alguns merecem ser “invejados”, mas não amaldiçoados, antes honrados e respeitados por isso.
      Enquanto o ímpio parece sofrer menos com o tempo, o justo sofre mais, principalmente se aprendeu que Deus lhe pede abrir mão de direitos, vaidades e posições humanas. Assim, com tempo o justo pode ver sua existência ficar menor diante dos homens, enquanto vê o ímpio crescendo no mundo. Entenda ímpio não necessariamente como alguém preso a vícios e crimes, mas alguém, que ainda que seja bom cidadão, tem seu ego como deus, a quem dá glórias, não a Deus, mesmo que nas palavras diga respeitar e temer a Deus. Quando se vive em humildade se é mais tentado a sentir-se desconfortável com a prosperidade dos outros, assim, manter-se fiel à nossa chamada traz mais aflições, mas tenhamos paz, Jesus venceu o mundo.

12/10/23

Respeito à fé alheia

      “Guardando o mistério da fé numa consciência pura.I Timóteo 3.9
      “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão.Gálatas 3.7

      O dia doze de outubro é o dia de “nossa senhora aparecida”, considerada pelos católicos a padroeira do Brasil. Muitos evangélicos veem as cenas veiculadas pela mídia nesse período, mostrando a veneração de milhares por essa “santa”, com certo incômodo. Como é tradicional no meio protestante, dar a seres humanos, mortos ou não, o valor, que conforme os evangélicos dizem, só Jesus merece, é idolatria. Católicos respondem a isso dizendo que não adoram ídolos, sejam em imagens ou estátuas, mas à Maria, em especial, devotam um valor especial já que ela é tida por esses como “mãe de Deus”. No entendimento que chegou esse que vos escreve, limitado mas sincero e buscado com tempo, estudo e vida com Deus, cometem-se vários enganos nesse assunto, por todos os lados, sejam por católicos, sejam por protestantes.
      Em primeiro lugar precisamos pensar um pouco fora da tradição religiosa sobre sobrenaturalidades aliadas a nascimento, vida, morte e ressurreição do Cristo, e pensar não que é pecado. Não nego a prática moral diferenciada do Cristo, referência mais elevada de vida virtuosa na Terra e papel espiritual eterno que tem como porta mais alta para Deus, contudo, será que Deus precisou de uma “esposa”, dar a um ser humano uma posição em vida e pós-morte superior, para cumprir seu propósito em Jesus? Ainda que creiamos na concepção espiritual de Maria, virgem e milagrosa, até que ponto isso a coloca numa posição superior, muitas vezes até da posição do próprio Cristo? Sim, não podemos negar que Maria foi um ser humano diferenciado, mas chamá-la de “mãe do Deus filho” e assim, de “esposa do Deus pai”, não é demais?
      Para muitos católicos só pensar em reavaliar dogmas já é sacrilégio, não entendem que muitos dogmas são tradições de homens, não foram ditados por Jesus homem e nem são legitimados pelo Espírito Santo hoje. Por lado temos a posição protestante, fechada, que se achando renovadora do evangelho original, só criou novos dogmas. Essa posição despreza algo muito importante, não é a autoridade da Igreja Católica, nem uma pretensa propriedade de verdades cristãs oficiais dessa, mas a fé sincera do ser humano. Se a Igreja Católica se mantém e ainda se manterá por muito tempo, é porque Deus procurou e achou fé sincera do bem nos católicos e achou. Em meus quarenta e seis anos como protestante, minha posição sobre o tema desta reflexão mudou algumas vezes, graças a Deus, creio que isso só me aproximou mais da verdade. 
      Já tive a posição protestante extrema, que católico peca quando reza em nome de qualquer santo, incluindo Maria. Hoje sigo crendo no Cristo como único e com papel superior, mas prefiro usar o termo elevado para ele, reto, ainda que abaixo dele existam no plano espiritual seres de luz que também podem receber as orações dos seres humanos no mundo, levar a Jesus e esse a Deus. É o jeito mais direto? Não. Nas religiões espíritas e espiritualistas, que consideram comunicação com entidades e espíritos, isso pode ser perigoso? Sim. Aliás um católico rezar a um santo não difere de um espírita pedir auxílio a um guia. Mas o principal é o que Deus pensa disso tudo, e para ele muitas coisas não são assim tão importantes, como acham, por exemplo, protestantes tradicionais. Algumas coisas são só formas, não conteúdo. 
      O inferno não será só habitado por alguns, como pensam os protestantes, nem faltarão outros no céu, como creem os católicos. A verdade não está na exclusividade original que protestantes dizem restaurar, nem na autoridade oficial e histórica que católicos falam manter, a verdade está no amor de Deus. Também não usem como argumento para se oporem a um amor ilimitado, permissividade e imoralidade que muitos querem praticar sem serem punidos, dizendo-se esses estarem protegidos pelo evangelho do amor, não é isso que estou dizendo. O verdadeiro amor de Deus aproxima o ser humano de Deus e nessa proximidade a santidade e as virtudes do Altíssimo são sentidas e requisitadas. Mas muitos que se dizem protegidos por dogmas, na prática não vivem nem a santidade e muito menos o amor de Deus. Deus a ninguém se nega. 
      Depois que me converti numa igreja Batista tradicional nos anos 1970, mais de uma vez fui ao altar respondendo à chamada missionária, os pregadores falavam de tantos, em tantos lugares do mundo, que precisavam se converter ao evangelho. Não tenho dúvida que na Índia, na China, nos países africanos e sul-americanos, muitos se converteram ao cristianismo protestante, mas não foram todos. Seria bom que todo o planeta conhecesse a Jesus? Com certeza. Mas isso acontece? Não. Precisa acontecer para que haja conexão do ser humano com Deus? Não, essa é a verdade, meus caros protestantes e católicos. Deus sempre olhará o interior dos homens e procurará fé sincera do bem, se achar, haverá comunhão, indiferente da forma da religião ou ausência dela, das crenças, dos dogmas, dos santos. Respeitemos fé alheia, com temor a Deus.
      Evangélicos não olhem com nojo a devoção católica à Maria. Católicos não vejam com arrogância a desconsideração dos protestantes aos seus santos. Afro-espíritas não se vitimizem diante das religiões dos héteros brancos burgueses. Kardecistas não se achem sinceramente superiores a todos por vocês terem visto além do véu. Ateus não considerem este que escreve e todos os religiosos uma turma de ignorantes, supersticiosos, repletos de culpas não resolvidas. O humilde acha sabedoria, respeita todos, tem certeza de sua fé, mas não a impõe aos outros, considera a fé alheia e reavalia sua prática de vida com temor a Deus, sabendo que nada sabe, ainda que confie de todo coração em Deus e busque uma vida limpa moralmente. A verdade é que temos visão restrita de tudo e de todos, a eternidade nos mostrará isso, quem morrer verá.

11/10/23

Liberdade religiosa

      “Cada um se fartará do fruto da sua boca, e da obra das suas mãos o homem receberá a recompensa.” Provérbios 12.14

      Uma coisa é respeitarmos a fé de cada um, isso é mais que acatar um direito legal, é respeitar o direito ao livre arbítrio que o próprio Deus dá a todo ser humano. Outra coisa é aceitarmos o mal, algo que prejudique as pessoas. Mas o que é mal e o que é bem? É só o cristianismo do mundo que tem autoridade para dizer o que é mal e o que é bem? Os novos tempos respondem taxativamente que não, e eis um fato que muitos cristãos fundamentalistas não aceitam. Mas há outros aspectos que devem ser considerados para entendermos o quanto “liberdade religiosa” é tema complexo.
      Muitos cristãos não conhecem e nem querem conhecer as religiosidades de matriz africana, se colocam no direito de julgar, mas não no dever de conhecer. A base doutrinária para isso é a que ensina que em Cristo há o Espírito Santo, a verdade e o bem, o que não for isso será mentira e mal do diabo e de demônios. Isso fecha o assunto de forma extrema, isso exprime o que creem muitos católicos, protestantes e evangélicos. Isso não deixa margem para diálogo, mas penso que ainda sob esse rígido dogma, pode haver respeito com as diferenças se houver amor cristão ao próximo.
      Mas muitos cristãos muitas vezes estão usando liberdade de expressão para coibirem a liberdade de expressão de não cristãos. Penso que isso é menos comum, já que o simples fato de se acharem proprietários da verdade maior sobre espiritualidade, tanto faz para eles terem ou não apoio legal. Contudo, esse apoio atual que muitos cristãos têm dado à política, tem achado na leitura equivocada de liberdade de expressão mais que um direito legal a ser apropriado, mas uma vingança, pelos tempos passados quando, principalmente o cristão não católico, era desrespeitado e odiado.
      Muitos não cristãos escolhem ter comunhão com “espíritos superiores”, não buscam o mal em hipótese alguma e têm em suas vidas os bons e duradouros frutos disso. Para aceitar isso tem que reconhecer que há espíritos superiores, assim a dificuldade para isso novamente está no cristianismo conservador, que como dito antes, chama de demônios tudo que não é Espírito Santo. Mas podemos invocar o amor de Deus que ouve a todos, assim como levantar a possibilidade de serem aqueles que muitos chamam de outros nomes, por serem de outras culturas, Espírito de Deus, não demônios.
      Muitos defendem religiões de matriz africana só por ser dessa matriz, indiferente se é do bem ou do mal, e muito mais por ser questão cultural que religiosa. Cada cultura tem direito de manter seus valores, sua história, seus costumes, suas religiões, e as culturas de origem africana muito mais, visto terem sido oprimidas e cerceadas por séculos. É justo muitas reivindicações hoje em dia, de dívidas históricas que precisam ser pagas, pelo menos até que descendentes de escravos não sejam a maioria da classe mais pobre, e estejam preparados para competirem com igualdade com outros. 
      Muitos atacam o cristianismo só por ser cristianismo, indiferente se há preconceitos nele ou não. É certo que muito disso é culpa do catolicismo, que ainda que entregasse o Cristo à humanidade, manteve interpretações bíblicas equivocados que impediram o pensamento científico assim como perseguiram outras religiões, muitas vezes de forma violenta. Mas Jesus é maior que catolicismo e protestantismo, senão não seria tão relevante até hoje, Cristo é mais que o cristianismo do mundo, assim não façam com o evangelho o que fazem com outras religiões, condenar geral sem conhecer. 
      Muitos têm comunhão com “espíritos inferiores” e isso é direito legal deles, mas deveriam aceitar que é prejudicial e é refratado por muitos. Isso é ponto polêmico, aceitar que há religião do mal, e não me refiro a satanismo explícito, que se mantém secreto e que não quer publicidade. Mas como há pastor e padre mal intencionado, há babalorixá, ialaorixá, pai ou mãe de santo (dependendo se é candomblé ou umbanda) mal intencionado. Isso a mídia não admite, mas muitas vezes manipula liberdade de expressão para defender o que lhe convém e esconder o mal, não cumpri sua tarefa profissional.
      A verdade é que todos mentem. Católicos mentem, evangélicos mentem, afroespíritas mentem, mídia mente, ateus mentem, e cada um enfatiza ou desconsidera o que lhe convém. Por isso não podemos tomar partido de homens, de nenhum deles, ainda que tenhamos nossas crenças, nossas religiões ou nada. A mídia seria coerente se fosse o mais isenta, científica e profissional possível, já os cristãos deveriam seguir o exemplo do Cristo, de amor, santidade e humildade, mas os afroespíritas deveriam no mínimo desejar aos outros o que querem para eles, direitos iguais e avaliações justas. 

10/10/23

Só mais um pouquinho

      “Vocês precisam perseverar, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcancem a promessa. "Porque, ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem virá e não irá demorar; mas o meu justo viverá pela fé; e, se retroceder, dele a minha alma não se agradará." Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição, mas somos da fé, para a preservação da alma.Hebreus 10.36-39

      A vitória maior, ou final, não é fazermos tudo que Deus nos orientou, sermos tudo o que poderíamos ser de melhor com o que Deus nos entregou, fazermos felizes aqueles que de fato o Senhor nos deu forças e oportunidade para fazermos felizes, a vitória é depois de fazermos tudo isso continuarmos os mesmos. Que mesmos? Aqueles que fomos quando alcançamos tudo o que precisámos, naturalmente isso deve ocorrer em nossas velhices. Mas é justamente nesse tempo, com menos forças físicas e com poucas motivações emocionais, assim como com menor número de responsabilidades, que muitos de nós podem desistir e porem a perder tudo o que conquistaram até então. 
      O que é mais difícil, acharmos motivos enquanto estamos fazendo, ou quando nada mais podemos fazer? Ativismo é vício e pode ser fim em si mesmo, quem está trabalhando está sendo visto pelos homens, assim sendo honrado por esses, contudo, quem só espera só pode ser valorizado por Deus, que vê além do corpo trabalhando, mas o espírito crendo e vigiando. É para esses a palavra do escritor da carta aos hebreus, perseverarem depois de haverem feito tudo, vivendo pela fé, não para terem recompensa de trabalho material realizado, mas da confiança em Deus exercida, da fé. Há uma exortação séria no texto, mesmo após termos feito tudo, se retrocedermos desagradaremos a Deus. 
      Contudo, neste momento que escrevo este texto, a parte da passagem acima que me tocou foi, “ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem virá e não irá demorar”, a versão bíblica mais tradicional diz, “ainda um pouquinho de tempo e o que há de vir virá, e não tardará”. Tome para você essa palavra, não só referindo-se a algum evento escatológico, mas a algo específico de tua vida agora, que você está aguardando demais, eu tomei para mim. Você acha que já fez tudo que podia? Não tem forças para mais nada? Já está esperando há algum tempo? Pois não desista, continue esperando e vigiando, agora só falta pouco, o que Deus te prometeu está para acontecer. 

09/10/23

Afeto de pai

      “Assim como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece daqueles que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó.Salmos 103.13-14

      Ainda que erremos, que desapontemos a nós mesmos, que nos entristeçamos sempre e às vezes por tão pouco, ainda que nossa desesperança nos derrube e nossa inconstância nos afaste do amor maior, Deus, como pai que sempre se compadece, empático e misericordioso, se aproxima de nós. A luz se faz mais forte e nos abraça, nos esquenta e nos levanta dos cantos escuros e frios nos quais tentamos fugir da vida. Assim achamos forças, achamos motivo para prosseguir e sorrir, encontramos de novo algo pelo que vale a pena perseverar e melhorar. Maravilhoso é Deus, sabe que ainda que mereçamos disciplina, colher o fruto amargo das sementes ruins que plantamos, não resistiríamos se ficássemos longe dele por muito tempo. 
      Quem buscou a Deus com humildade e simplicidade, sem preconceitos ou rancores, querendo só um colo de pai, consciente que é pecador, que não está sendo disciplinado injustamente, esse achou o afeto de Deus, profundo, silencioso, mas poderoso. Tenho pena dos incrédulos, que não lutam contra a religião, contra Cristo, nem contra Deus, mas contra si mesmos, contra suas essências espirituais que sabem que só podem ser consoladas pelo Espírito Santo. Ciência, bom senso, lógica, psicologia, sabedoria nas finanças e na saúde, tudo isso é útil, mas sem fé em Deus de nada valerá, quando a alma mais precisar do afeto que só o pai espiritual pode dar. Felizes os que acham a presença inefável de Deus quando nada mais consola. 
      Ele conhece a nossa estrutura, lembra-se de que somos pó, quanta verdade há nisso, tenha tido essa experiência por anos e anos, não foi a religião que me ensinou isso, não foram homens, mas foi meu próprio espírito. Graças a Deus que não lutei contra aquilo que há de mais profundo e puro em mim, e ninguém pense que isso é privilégio meu, ou de alguns, todos podemos buscar a Deus e achá-lo, basta querermos. Eu não acredito que exista ateu, acho que são só teimosos que tentam negar o inegável, só Deus sabe a prece silenciosa e secreta que fazem quando uma dor insuportável lhes cai. Não sejamos orgulhosos, quem não se quebrar aqui, será quebrado lá, será disciplinado, mas depois será consolado, todos serão. 

08/10/23

Equilíbrio no espírito! (2/2)

      “Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos; como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus.”  I Pedro 2.15-16

      O processo que o universo usa para evoluir o ser é esgotá-lo no plano físico, até que não exista outra opção senão conhecer e viver a vocação maior do ser que é o plano espiritual. Falando de um tema importante da agenda atual, não do homem, apesar desse que achar que é dele, mas de Deus, faço uma pergunta: podemos ter liberdade para viver a sexualidade com a qual nascemos? Sim, Deus gera todas as sexualidades para que o ser humano administre espiritualidade nelas. Mas vou levantar outra questão dentro do tema homossexualidade: chegar ao extremo de transformar o corpo físico para se adequar a um desejo interior de sexualidade, é liberdade ou obsessão? É direito ou só violência contra si mesmo? 
      Só podemos entender o ponto de vista que será apresentado aqui se entendermos que o ser é espírito antes de ser corpo. Para o cristão conservador aceitar isso é entender que as pessoas nascem com certas características de sexualidade, sexualidade não é definida por criação ou pelo meio, assim um homossexual o é sendo mal educado ou mesmo que tenha sido formado no lar mais afetivo e equilibrado. Para o não cristão aceitar isso é entender que ainda que o âmago do ser tenha suas tendências, há limites, a liberdade melhor não está nos excessos, mas no uso equilibrado dela temendo a Deus, que põe um espírito num corpo para amadurecer o ser em especificações originais. Viemos ao mundo com missões definidas. 
      O posicionamento compartilhado aqui deixa o que vos escreve em situação complicada, nem agrada a cristãos, nem agrada a não cristãos, justamente por não ser posição extremada, seja para um lado ou para o outro, mas uma posição centrada. Um homem que se sente mulher, fazer cirugia para mudar o corpo e adquirir aspecto mais feminino, desrespeita-se tanto quanto uma mulher, que só se sente mulher se fizer cirurgias para mudar seu corpo e realçar mais características femininas. Isso vai contra o pensamento de muitos cristãos que nem aceitam homossexualidade como algo normal, mas contraria não cristãos que extremam a liberdade e tiram Deus da equação ser humano, assim para esses todos têm liberdade para tudo.
      Deus revela-se nas diferenças, não só de cor da pele e de outros atributos físicos externos, mas também de intelectualidade e de sexualidade. Não é certo usar uma interpretação ao pé da letra de texto bíblico registrado por ser humano de outro tempo para afirmar que só há sexualidades binárias, hétero macho e fêmea, esse é um extremo. O outro extremo é pensar que tudo que queremos podemos fazer, nesse pensamento não basta assumir-se emocionalmente homoafetivo e ser atraído por alguém com características sexuais físicas originais semelhantes, tem que se mutilar o corpo. Não estou dizendo que Deus não ame os que mudam seus corpos, mas um dia entenderemos que isso nunca foi importante. 
      Quem quer se modificar para ser igual a um padrão despreza sua melhor característica, a diferença. Sinto duas coisas de Deus para aqueles que sabem que não têm sexualidade binária. A primeira é, se ela for verdadeira, interior, não só experiência temporária, assumam-se, sem medo, achem alguém que os respeite por inteiros e construam com esse um relacionamento duradouro e fiel, adotem filhos, ou os gerem com auxílio de outros, construam famílias e façam o mundo melhor. A segunda é, temam a Deus, busquem-no com todo o coração, estudem a Bíblia, ela é bênção, mas interpretem-na com a ótica do Espírito Santo, não pelo conservadorismo de homens, procurem igrejas que os respeitem, perdoem os preconceituosos. 
      Quem acompanha este blog sabe da opinião do que vos escreve sobre homoafetividade, que em si ela não é pecado, pecado é uma maneira errada que se administra qualquer sexualidade. Homoafetivos, libertem-se, esse direito Deus vos dá, mas busquem coisas espirituais, não se ocupem tanto em mudar seus corpos, aceitem-se como vieram ao mundo com humildade, suportando limites que todos de alguma forma têm. À eternidade levarão espíritos, não as alterações que fizeram em seus corpos, e creiam, todos podem ser felizes como naturalmente são. Muitas novidades que vemos hoje passarão, outras seguirão com o processo evolucionário da humanidade, mas Deus e sua vontade serão exaltados no final, por todos. 
      Preciso dizer algo importante para encerrar este texto. Quando falamos de Deus, do cristianismo e de moralidade, muitos têm a tendência de achar que estamos ditando regras, que não obedecidas acarretam severas punições divinas. O Deus verdadeiro não funciona dessa maneira, sim, ele é santíssimo, e os que não estão santos naturalmente se afastam dele. Sermos punidos é estarmos longe de Deus, não porque ele se afaste, mas porque nós, mantendo-nos errados, nos afastamos dele. Que homoafetivos vivam este tempo como podem, se acharem que suas essências sexuais pedem deles mudanças nos corpos físicos, que façam isso. Deus não os avaliará para melhor nem para pior por isso, Deus considera a qualidade moral interior. 

Leia na postagem de ontem
a 1ª parte desta reflexão

07/10/23

Liberdade do corpo? (1/2)

      “E, eis que cedo venho, e o meu galardão está comigo, para dar a cada um segundo a sua obra.Apocalipse 22.12

      Existem pessoas que ficam famosas porque fazem algo com qualidade, ainda que seja numa atividade simples e não tão bem remunerada, esse na verdade deveria ser o jeito único de se ter fama duradoura. Hoje, contudo, muitos só são famosos, sem que nada ou muito pouco façam. Ainda que com internet e telefonia celular ser famoso só por ser famoso seja fácil, sempre houve inúteis famosos, que viviam só para serem celebridades, sem que fizessem algo útil, muitos aristocratas eram assim. Há lado positivo em buscar fama hoje, postar fotos e vídeos na internet e engajar seguidores permite vender espaço virtual para publicidade, isso acaba sendo atividade profissional mais rentável que outras que não trabalham por fama.
      São os tempos atuais, não sejamos bitolados, e mesmo esses que parecem que nada fazem, fazem alguma coisa, disfarçada de casual, hoje casualidade é de propósito, planejada, trabalhada, para ser comprada por uma sociedade afoita por liberdade para nada fazer. Precisamos entender que Deus está no controle, as importantes bandeiras sociais levantadas hoje não são de alguma forma vitória do diabo, o mal nunca vence. Muitos cristãos se enganam achando que a liberdade pela qual o mundo tanto luta hoje é coisa do mal, mas é só Deus permitindo a muitos receberem o que lhes foi tirado por séculos, pela opressão, pelo preconceito e pela escravidão, através do machismo branco burguês heterossexual conservador cristão
      Contudo, todo extremo, ainda que seja efeito natural do extremo oposto, consequência do movimento do universo no tempo buscando equilíbrio, tem seu lado ruim, e atualmente o lado ruim é tantos quererem direitos para serem livres, ainda que não façam algo útil com liberdade. A história da civilização caminha assim, de um lado para o outro, mas a tendência é a distância entre extremos diminuir, até que opostos sejam iguais, nesse momento a humanidade alcançará equilíbrio. O fim será bom e não está em extremos, mas no centro. Mas voltando ao ponto desta reflexão, entendamos que existe, sim, um lado ruim, de fama por nada, que é tão incentivada atualmente, um lado que se opõe a um princípio espiritual básico. 
      Existimos neste mundo para trabalhar para anexar virtudes morais a nossos espíritos, como tanto temos dito aqui, assim fama deveria existir quando fazemos algo virtuoso, não só por aparecermos bonitos no Instagram e no Youtube, em festas, usufruindo a vida. A fama que importa não é diante de homens, mas diante de Deus, que se agrada por nos ver persistindo no caminho da vida eterna, nos preparando para sermos cidadãos do reino dos céus. Infelizmente, muitos das últimas gerações estão sendo doutrinados pelos poderes deste mundo a só aparentarem e serem glorificados pelo lado de fora, a qualidade de seus espíritos é relegada. O mundo atual está materializando o ser e negando o espírito e sua vocação maior.
      Há algumas décadas atrás pai e mãe não incentivavam filhos a serem artistas, não qualquer pai e mãe, aliás, a classe artística era vista genericamente como promíscua e vagabunda. Hoje, contudo, pais querem que filhos sejam artistas, ainda que nem talento artístico tenham, vemos isso até nas igrejas evangélicas. Quando um bebê está para nascer mães já criam páginas em redes sociais só para compartilharem com o mundo uma intimidade que antes era preservada. As pessoas querem aparecer, não ser, buscam aplausos dos homens, não agradar a Deus, querem mudar seus corpos a qualquer preço para serem vistas como belas pelas estéticas mais populares do momento, para serem aprovadas e exaltadas como melhores.
      Liberdade para todos e respeito às diferenças, são agendas urgentes, não só ideologias de progressistas, comunistas e endiabrados, como alguns cristãos conservadores acham, mas colocadas sem valores morais entregam a humanidade ao extremo oposto daquele que tais agendas combatem, e um extremo sempre é tão ruim quanto o outro. Na matéria tudo enjoa e pede algo oposto que satisfaça, assim, até a liberdade desenfreada que tantos hoje acham o valor mais caro, sem Deus é vazia. Mas tenham paciência os ansiosos pelo juízo final, não é o fim, só mais uma fase necessária para a evolução da humanidade em direção a Deus. No final a luz alcançará a todos e será reconhecida como vencedora, reconhecida, pois vencedora já é.

Leia na postagem de amanhã
a 2ª parte desta reflexão

06/10/23

Retidão é filha da humildade (5/5)

      “Eu fiz a terra, o homem, e os animais que estão sobre a face da terra, com o meu grande poder, e com o meu braço estendido, e a dou a quem é reto aos meus olhos.” Jeremias 27.5

      Na retidão não há malícia, falsidade ou julgamento, só a verdade que conduz sem desvios. Não é fácil sermos retos, e ser reto não significa nunca errar, é justamente quando não querermos mostrar que erramos que não somos retos. A malícia é filha do orgulho, a humildade é mãe da retidão, que não teme opinião do homem, culpa do acusador e o desconhecido do futuro, não tem receio de se mostrar como é, e é um perdoado em Jesus que prossegue praticando boas obras. Ser reto é ir diretamente ao ponto, sem dar justificativas por erros ou exagerar nos acertos, e ainda que não se tenha nada pelo que ser honrado por homens, confiar que Deus se agrada do que se é. Ser verdadeiro não é revelar pecados para qualquer um, mas é não precisar aparentar o que não se é. A retidão mais genuína se manifesta muitas vezes no silêncio.
      Se o reto caminha na luz pelo Espírito Santo levando a verdade, o malicioso faz as curvas da mentira, exagera o bem que fez, aumenta o mal que os outros fazem, desconfia da sinceridade de todos, se acha sábio e experiente, mas é só uma criança insegura sob camadas e camadas de falsidade e vaidade. A luz é tão reta que pode confundir os tortos, quem se acostuma com a mentira não sabe lidar com a verdade. A retidão liberta, deixa-nos leves e fortes, rejuvenesce-nos, aumenta os dias de paz, protege-nos dos vícios e das enfermidades. O reto não precisa fazer muito, nem tudo, mas só o que Deus lhe pede e quando pede, o malicioso é escravo da obrigação, seus dias são pesados e insatisfatórios, enfada-se por ter que aparentar o tempo todo virtudes que não possui e alegria que não tem. O reto acha alegria na simples e pura verdade. 

05/10/23

Na luz pouco se fala (4/5)

      “Oh! quão doces são as tuas palavras ao meu paladar, mais doces do que o mel à minha boca. Pelos teus mandamentos alcancei entendimento; por isso odeio todo falso caminho. Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho.” Salmos 119.103-105

      Se não há visão, há trevas, ainda que se tenha informações detalhadas sobre o que não se vê. Interessante que os que menos veem são os que mais falam sobre o que acham que veem. Nas muitas palavras há no mínimo superficialidade, e em última instância, mentira. A sabedoria mais alta é simples, se verbaliza em poucas palavras, mas nos revela mistérios profundos e genuínos. Deus se comunica conosco pela emanação de um raio de sua luz, que tocando nosso espírito alegra-nos, consola-nos, nos enche de paz e esperança. Depois disso nossa mente física racionaliza e as palavras surgem em nossas bocas, mas a palavra de Deus nem precisa das nossas palavras, a ela basta iluminar. A luz de Deus nos atrai a ele pelo amor manifestado em Cristo, ela desce, se compartilhando conosco, pelo vivo Espírito Santo do Altíssimo.
      Quando nossos corpos físicos pararem de funcionar e acordarmos espiritualmente livres no outro plano, o Senhor só olhará para nós e sorrirá. Se houver humildade dentro de nós, sentiremos a seriedade de todos os nossos pecados, mas acharemos paz no perdão por Jesus, nossas obras persistentes de santidade e em amor, que acumulamos no mundo, nos harmonizarão com o Altíssimo e seremos elevados ao céu. Nesse momento se realiza o juízo, nesse momento céu e inferno se manifestam dentro de nós, nesse momento o homem interior de cada um mostrará sua verdade, se o ser procurou e conseguiu obedecer a vontade maior de Deus, ou se só existiu no mundo para aparentar, até religião, mas somente para homens, não para o Senhor. Nisso não haverá discursos, argumentos nada valerão, valerá só a verdade silenciosa da luz. 

04/10/23

Inversão de valores (3/5)

      “Coisa espantosa e horrenda se anda fazenda na terra. Os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes dominam pelas mãos deles, e o meu povo assim o deseja; mas que fareis ao fim disto?” Jeremias 5.30-31

      Quando o errado é visto como certo, o certo só poderá ter um lugar, o lugar de errado. O engano tem sempre duas faces, considera o errado e desconsidera o certo, assim, não pense quem erra de um lado, o faz para poder acertar no outro. Evangélicos cometem esse erro, ainda que digam na política, “esse homem não é perfeito, mas ele defende o conservadorismo da tradição judaica-cristã, é o melhor que temos”. A luz é cem por cento clara, se tiver um por cento de escuridão será trevas. Deus não faz concessões, assim quem diz que está debaixo de certos pastores porque o homem não é perfeito, perde seu tempo e apoia o erro. Deus não pede de nós nada mais que perfeição, e se homens em certas posições não podem ser perfeitos, não devemos apoiá-los. 
      Muitos evangélicos perguntarão, “mas se eu não apoiar esse homem, a quem vou apoiar?” A ninguém, quem disse que evangélico deve apoiar políticos? Cumprir deveres civis, sim, mas depois manter-se afastado da área, sabendo que é coisa do mundo, não do céu. Em igrejas não somos obrigados a aceitar pastor certo só em parte, se todos saíssem de igrejas erradas e ficassem firmes em suas relações com Deus, igrejas certas surgiriam em maior número. Mas quem tem coragem para se levantar contra instituições religiosas, de suportar ser taxado de desviado, parado, excomungado, herege? Assim segue errado o cristianismo, enquanto isso os certos são vistos como errados, tratados como loucos e endemoniados, mas Jesus também foi tratado assim. 

03/10/23

Administrando a mentira (2/5)

      “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.” I João 2.16-17

      Viver no mundo é administrar a mentira, eis a única verdade que existe no plano material. Sonhamos tanto na mocidade, estudamos, trabalhamos, mas poucos conseguem tudo o que querem, e mesmo esses acham que não conseguiram o suficiente. Ainda que cuidemos bem de nossa saúde, a deterioração de órgãos e membros é irrefreável, a partir de uma idade, antes dos quarenta anos, nossas células não se renovam mais, assim, iniciamos processo de morte. Mas ainda assim empreendemos, nos apaixonamos, queremos ser eternos, e na verdade nada há de errado nisso, só aceitam a morte ou a procuram aqueles que estão enfermos, e nem na maioria das vezes no corpo, mas na mente. Seguimos mentindo para o espelho, vendo nele o jovem que não somos mais e mutilando nossos corpos e hábitos para não exibirem velhice. 
      Vivemos mentiras em nossas relações afetivas, nas mais próximas buscamos a fidelidade que não damos, assim ninguém também nos dá, queremos amigos incondicionais e exclusivos, mas não somos tudo o que somos com todos, assim muitos conhecem partes verdadeiras de nós e outras partes, as falsas, que queremos mostrar como boas, mas que não são. Buscamos amigos nos pais, pais nos patrões, patrões nos pastores, pastores nos psicólogos, psicólogos nos cônjuges, e cônjuge em quem só quer uma relação rápida, física e ilusória conosco. Quando chegamos no tempo de fazer resumos de memórias a mentira se torna clara, achamos desculpas para nossos erros e inventamos acertos que nunca tivemos, não narramos fatos reais, mas inventamos fábulas, com alguém que queríamos que fosse nós, no papel de herói vencedor.

02/10/23

Em que ponto chegamos? (1/5)

      “Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? Quem morará no teu santo monte? Aquele que anda sinceramente, e pratica a justiça, e fala a verdade no seu coração. Aquele que não difama com a sua língua, nem faz mal ao seu próximo, nem aceita nenhum opróbrio contra o seu próximo; a cujos olhos o réprobo é desprezado; mas honra os que temem ao Senhor; aquele que jura com dano seu, e contudo não muda.Salmos 15.1-4

      Em que ponto estamos chegando no mundo, onde santidade está se tornando algo errado? O simples citar da palavra santo já nos coloca na cabeça de muitos como ignorantes, bitolados, na melhor situação como utópicos, mas na pior, como hipócritas. Santidade se tornou hoje, não só um objetivo impossível, mas desnecessário, parece que o chique é ser livre e ser livre, na opinião de muitos, é poder se sujar e não se sentir culpado por isso. A igreja católica tem parte de culpa nisso, construiu no inconsciente coletivo um conceito equivocado de santidade, assim para muitos ser santo é ser louco, alienado. Nós evangélicos já ouvimos muitas vezes os pregadores dizerem que santo é separado, mas separado do quê? Que separação agrada a Deus e tem utilidade maior? 
      Jesus foi o melhor exemplo de santo que viveu neste mundo, era limpo moralmente e íntimo de Deus espiritualmente, mas ainda assim próximo da humanidade, andava com pecadores, tinha amigos, ia a festas e celebrações. Jesus não separava o corpo, não em primeiro lugar, nem a afeição, mas o espírito, que como efeito mantinha o corpo limpo e amoroso, ele não precisava se isolar de convívio social para ter santidade, ainda que separasse muito tempo para buscar a Deus, conhecer sua vontade e receber sua unção. O problema é justamente esse, muitos até querem ser santos, mas sem Deus, só com a religião dos homens, querem privar o corpo físico de seus desejos sem dar liberdade ao Espírito Santo em suas vidas. Só temos santidade quando o santo nos habita.

01/10/23

Onde estão os nove?

      “E aconteceu que, indo ele a Jerusalém, passou pelo meio de Samaria e da Galiléia; e, entrando numa certa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos, os quais pararam de longe; e levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós. E ele, vendo-os, disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo eles, ficaram limpos. E um deles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz; e caiu aos seus pés, com o rosto em terra, dando-lhe graças; e este era samaritano. E, respondendo Jesus, disse: Não foram dez os limpos? E onde estão os nove? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te, e vai; a tua fé te salvou.Lucas 17.11-19

      Lepra, uma doença estigmática ainda hoje, afasta as pessoas, e no século um era considerada um castigo, à enfermidade do corpo era aliada fraqueza moral, pecado diante dos deuses. Dez leprosos, semelhantes se agrupam se são descriminados pelos diferentes que se acham melhores, e acham companhia e consolo nos pares, constróem mesmo no isolamento um lar. Esses em especial pareciam crer que Jesus podia curá-los. Jesus fez milagres, mas não de um jeito padronizado, com as mesmas palavras e atitudes, muitas vezes ele usava maneiras peculiares. Dessa vez ele foi direto ao final, orientou os homens e se apresentarem aos sacerdotes, esses eram uma espécie de inspetores de saúde, que atestavam a cura da hanseníase. 
      Jesus não deu qualquer ordem para curar a doença, mas orientou os homens a buscarem aqueles que podiam atestar que eles não estavam mais doentes. Cada milagre que Deus faz em nossas vidas é para provar uma coisa específica, no caso dos homens não era encerrar um período de tratamento, mas verificar a qualidade da relação deles com Deus. Criam de fato em Jesus, ou sabendo da fama do Cristo foram só tentar a sorte? De repente até poderiam se livrar da hanseníase. Mas eles obedeceram a Jesus e foram curados, não na presença do Cristo, mas enquanto caminhavam até os sacerdotes. Memória curta ou ingratidão, essa era a prova daqueles homens, e nessa só um dos dez homens, justamente um samaritano, foi aprovado. 
      Muitos problemas não são nossos problemas principais, mas só meios que Deus usa para tratar nossos problemas principais. O problema principal dos hansenianos não era a hanseníase, e talvez com o tempo nem fosse mais fé, mas era reconhecer a autoridade de Deus, que tanto permite a doença como a cura, com um propósito maior. Deus olha para nós e sabe exatamente o que precisamos viver para sermos espiritualmente mais fortes, Jesus olhou os hansenianos e viu que o que faltava-lhes não era fé, mas gratidão, por isso nem se preocupou em explicitar o milagre na presença deles. Jesus queria ver como se comportariam após a cura, longe dele. Um dos homens ao perceber a cura retornou, parece que antes de ter chegado aos sacerdotes.
      O que é mais importante para nós, sermos reconhecidos por homens por nossas capacidades, ou sermos gratos a Deus por nos amar e proteger, mesmo que sejamos fracos? Para que somos mais rápidos, para pedir ou para agradecer? Será que nossa fé não é mais importante mesmo que Deus? Temos certeza que receberemos por crermos, ou porque apraz a Deus nos dar? Quem tem fé na fé pode até alcançar dádivas, mas essas só beneficiarão seu corpo físico, não seu espírito, só uma relação correta com Deus transforma-nos por dentro. Uma relação certa com o Senhor gera em nós a gratidão dos humildes, onde sabemos que somos o que somos, e temos o que temos, pelo amor e pela graça do Altíssimo, por isso somos gratos a ele. 
      Há algo que chama a atenção na passagem acima, a segurança de Jesus. Se você já teve experiência de oração que fez e que Deus respondeu prontamente, sabe que envolveu muita convicção emocional e foco mental, para mim pelo menos foi assim. Tive que buscar algumas vezes até que sentisse autorização e capacitação espiritual de Deus para fazer a oração que Deus queria ouvir, que me foi revelada, e que teve sucesso. Contudo, Jesus nem precisou pedir ou ordenar nada, apenas orientou os homens a se apresentarem para aqueles que atestariam a cura. A verdade é que o Cristo homem existia o tempo todo numa condição que nós só experimentamos excepcionalmente, ele vivia e andava no Espírito, nossa exceção era regra para ele. 

30/09/23

Jesus usou de violência? (7/7)

      “E entrou Jesus no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas; e disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões; e foram ter com ele no templo cegos e coxos, e curou-os” Mateus 21.12-14 

      Jesus usou de violência? Sob certo aspecto, sim, mas Cristo fez isso porque ele podia fazer isso. Ninguém ouse ter a mesma autoridade do Cristo, ela era lastreada em vida de consagração, amor ao próximo e intimidade com Deus. Essa provocação do Cristo está no mesmo tom de outras, o Deus que está acima de família, também é superior às religiões, incluindo a poderosa com sede no Vaticano. Talvez aí esteja um dos enganos que fez parte da humanidade obedecer cegamente a um cristianismo deturpado, que parece ter existido desde o século quatro, pelo menos. Muitos acreditaram, e ainda acreditam, que as religiões cristãs que foram construídas sobre o evangelho são diferentes, melhores, legítimas, assim não podem ser confrontadas, questionadas, mas isso nega o espírito revolucionário do Cristo progressista.
      O motivo da revolta de Jesus foi ver um local com finalidade espiritual ser usado para fins materiais, e venda de material religioso, mesmo de Bíblia, onde o lucro é injusto e não é usado em benefício de pobres e necessitados, merece repúdio. Pergunto se fosse tirado o objetivo de lucros financeiros, o que restaria do catolicismo, do protestantismo, do pentecostalismo? Seria suficiente para manter homens e mulheres incentivados a pregarem o evangelho e manterem ministérios? E ainda que muitos sirvam em igrejas com boas intenções, o fazem de maneira equivocada, debaixo de líderes com intenções diferentes, isso não acontece em toda igreja cristã, mas em muitas. Precisamos reagir a isso, não com violência, mas com ausência, libertando-nos das zonas de conforto das igrejas e buscando a Deus em Espírito e verdade.
      Jesus entrando num lugar religioso e derrubando mesas e cadeiras sempre nos parecerá uma cena estranha, que não combina com o Cristo do amor, mas o registro do acontecimento está na Bíblia, não caiu fora sob qualquer filtro, seja dos escritores originais, das igrejas do século um, ou do catolicismo e da reforma protestante. Deus só age de certas maneiras, que aos nossos olhos parecem excepcionais, em situações igualmente excepcionais, e sujar um lugar santo com ganância material é algo que desagrada muito a Deus. Penso em nossas vidas pessoais, que não cheguemos ao ponto de termos que ser tratados de forma rápida e dura por Deus, virando nossas vidas de cabeça para baixo, como as mesas e cadeiras dos comerciantes de pombas da passagem, para acordarmos para a vontade maior do Senhor para nós. 

29/09/23

Milagres não mudam o interior (6/7)

      “tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje; e eu vos digo, porém, que haverá menos rigor para os de Sodoma, no dia do juízo, do que para ti” Mateus 11.23-24

      Jesus sabia que milagres não mudam o interior das pessoas. Eis uma verdade que pode escandalizar cristãos que hoje acham que suas crenças são a verdade maior de Deus porque por elas podem experimentar milagres físicos. Jesus fez milagres? Sim. Era essa sua missão principal? Não. Por que ele fez milagres? Por amor, via o sofrimento humano e queria ajudar, esse é sempre o primeiro motivo de Deus, que toma a iniciativa e atrai o ser humano à sua luz. Mas havia um segundo motivo, era importante que o ser humano do século um entendesse que aquele Jesus de Nazaré, filho de José o carpinteiro, em seu espírito era Deus, e no corpo o melhor exemplo de ser humano vivendo a vontade de Deus. Para provar a um homem antigo, que via poder na superação de dificuldades materiais, realizar curas físicas era se mostrar poderoso.
      “Uma geração má e adúltera pede um sinal, porém, não se lhe dará outro sinal senão o do profeta Jonas, pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra” (Mateus 12.39-40). Interessante esse texto, será que o único milagre que Jesus de fato deveria ter feito era ressuscitar depois de morto por três dias? Sob o ponto de vista de sua missão principal no mundo, sim. A missão era vencer a morte espiritual através de sua morte física, não só propiciando à humanidade perdão de Deus e respectiva paz, mas mostrando como praticar obras dignas de um perdoado, que mudam não o corpo, mas o espírito e para sempre. Essa provocação o Espírito Santo nos faz hoje, entendermos que o principal está no espírito e na eternidade, não na carne e neste mundo. 
      Mas mesmo a ressurreição do Cristo precisa ser entendida corretamente, não foi só uma prova que Deus tem poder para ressuscitar mortos, Jesus não reviveu para viver fisicamente no mundo, mas para existir espiritualmente iluminado no céu, e usei o termo iluminado para diferenciar sua existência das de todos os outros seres humanos que morrem no mundo. Jesus era um ser especial, não existiu nenhum outro como ele que tenha encarnado na Terra, assim sua passagem para o outro plano também foi única. Mas novamente precisamos entender que mesmo sua ressurreição foi um evento necessário para convencer o religioso judeu do século um, que tinha poucos conceitos espirituais em sua religião, apesar de fortes conceitos morais. Cristo ensina que o reino de Deus nos céus é superior a um reino da Terra protegido por Deus.
      Ainda sobre ressurreição, o termo no novo testamento, usado por Jesus e muito por Paulo, é importante para trazer principalmente ao povo judeu um conceito ao qual ele não estava muito familiarizado. A religião de Israel era para lhe dar prosperidade na Terra e vitória sobre nações físicas, não havia relevância no que ocorreria após a morte. Mas o novo testamento deixa claro que o túmulo não é o fim, que reviveremos após a morte do corpo, ressurreição (e não ressuscitamento) refere-se a isso, uma existência no plano espiritual onde seremos avaliados por nossas virtudes morais, não por riqueza no mundo, que definirá céu e inferno. Ressureição era um conceito novo ao judeu, e nunca nos esqueçamos, o novo testamento fala em primeiro lugar para ele. Não adianta ser ressuscitado no corpo e não ter ressurreição espiritual para a vida eterna, livrar-nos da morte eterna é o maior milagre que o Cristo faz. 

28/09/23

Seres independentes (5/7)

      “E disse-lhe alguém: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te. Ele, porém, respondendo, disse ao que lhe falara: quem é minha mãe? e quem são meus irmãos? e, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” Mateus 12.47-50 

      Cristo priorizou a ligação do homem com Deus. Se isso hoje é uma revolução nas relações sociais, mais ainda no século um, numa sociedade baseada no patriarcado, no trabalho braçal, na manutenção de heranças, onde se priorizava filhos homens, para que o negócio da família fosse mantido. Jesus fez essa revolução estabelecendo uma nova espiritualidade, onde se constrói um novo tipo de relação entre Deus e o ser humano, um Deus não mais só o todo-poderoso distante e exigente, Senhor dos exércitos, destruidor dos inimigos, mesmo criador do universo, mas simplesmente amigo. Entendamos certo, Jesus não desprezou sua família, mas se houve alguém que deixou pai e mãe e se tornou um ser humano independente, foi ele, contudo, mais que autonomia social e financeira, Jesus tinha consciência de sua missão espiritual. 
      Normalmente, a quem somos mais achegados, a quem amamos mais, quem mais nos conhece e mais conhecemos? A família. Infelizmente isso não é regra, a vida não é filme e muitos de nós convivem com famílias machucadas, mal formadas, que nos deixaram marcas profundas de dor e solidão. Mas Jesus se refere à família ideal, que aprouve a Deus, por algum mistério, dar a ele como homem, eu creio nisso. Pois bem, Jesus disse que aquele que fizer a vontade de Deus, seu pai maior, pai de todos os espíritos, esse tem conexão mais íntima e importante com Deus que com seu pai no mundo, ou com outro membro de sua família. Diz-se que família não se escolhe, amigos, sim, nossa amizade com Deus não é imposta, é escolha que ele permite-nos fazer. Feliz aquele que é amigo de Deus e que faz sua vontade.
      Um ser humano relativizado, que era alguém por ser filho, neto, bisneto de alguém, conceito que fica claro nas incansáveis árvores genealógicas que lemos mesmo no novo testamento, legitimando a descendência davídica de Jesus (Mateus 1), cede lugar a um espírito independente. Algo significativo na vida do Cristo homem é o fato dele ter sido solteiro, não foi casado ou teve filhos, isso reforça ainda mais o novo conceito de espiritualidade que ele entregou, onde o ser é importante em si mesmo, não por fazer parte de um coletivo, seja de um povo ou de uma religião. Ainda assim a Igreja Católica, desde sempre, e as igrejas evangélicas, especialmente hoje por seu grande número, querem viver uma espiritualidade ultrapassada, fora do Cristo verdadeiro, onde são salvos só os que fazem parte de suas fileiras de adeptos. 
      Independência pede pela liberdade e a conquista. Somos seres livres? O evangelho ensina-nos só uma conexão, a do amor, se somos presos a alguém é por amor. Amor, contudo, verdadeiro e puro, conhece-se e a quem ama, não deixa-se ser oprimido e não oprime, amor não sente-se cobrado e não cobra, amor não teme. Liberdade com amor leva-nos a nos respeitar sem sermos egoístas e manipuladores, sermos felizes e não deixarmos outros infelizes por causa disso. Só somos de fato independentes com liberdade em amor. Quando acordarmos livres do corpo físico na eternidade, a avaliação a qual seremos submetidos, nos olhará como seres independentes, não como filhos de quem quer que seja, membros de igreja, de ordem secreta, de grupo religioso. Só viemos e sozinhos voltaremos, sejamos independentes, mas livres em amor. 

27/09/23

Jesus andava com pecadores (4/7)

      “Porquanto veio João, não comendo nem bebendo, e dizem: Tem demônio; veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores; mas a sabedoria é justificada por seus filhos” Mateus 11.18-19 

      Comparado ao ministério de João Batista, Jesus estabelece dois tipos de espiritualidade, aparentemente opostos, mas ambos úteis aos propósitos divinos. João é o arquétipo da negação de prazeres e vaidades da matéria, usando o isolamento para se manter forte, ele não devia ser alguém agradável, mas também não era subjetivo. João representava o típico profeta do velho testamento, aliás, ainda que sua vida tenha sido registrada em textos do novo testamento, foi o último profeta de Israel. Seu ministério tinha urgência, avisava que o velho estava acabando e que o novo começaria, mas em sua estética bruta, que deixava claro que o reino de Deus na Terra tinha sido abrangido para os céus, foi visto como endemoniado. Isso não devia fazer diferença para ele, sabia a vontade de Deus e a fazia, ainda que fazendo inimigos.
      Jesus apresentava uma nova espiritualidade, não mais para viver em riqueza no mundo, mas para gerar valores para o outro mundo, enquanto se vive aqui com serenidade discreta, ainda que no meio dos homens. É impossível esconder a luz mais alta num mundo em trevas, e ainda que soubesse calar para amar, os homens o identificaram e o mataram. Jesus homem não tinha vaidades, nem se fiava nas referências dos religiosos para viver uma espiritualidade que os agradasse e que os convencesse nas regras de seus jogos, ele tinha amigos no mundo, não na liderança religiosa. Onde fazemos mais amizades que em mesas de bar? Não estou dizendo que Jesus era alcoólatra e fútil, mas não era um falso moralista, fazia aquilo que os que se consideravam espirituais achavam mundano e isso deixava genuínos falsos moralistas confusos. 
      João Batista é bíblico, sua história está na Bíblia e podemos aprender muito com ela, contudo, ele não é o exemplo mais alto de espiritualidade para nós hoje, Jesus é. Há muitos evangélicos achando que santidade e consagração é viver nos moldes de profetas do antigo testamento, ir às praças pregar o fim do mundo e arrependimento para escapar do inferno, sim, Jesus fazia isso, mas de um jeito novo, o jeito que ele veio entregar à humanidade. Espiritualidade hoje não é se abrigar no templo e lutar por um reino de Deus na Terra, como os judeus faziam, mas é ser o templo do Espírito Santo e se preparar para o reino de Deus na eternidade, para isso temos que ser luz no mundo, singulares por dentro, mas plurais por fora.
      Será que entendemos a provocação do Cristo de andar com pecadores? Não é frequentar bares com amigos não cristãos, também não é ser assíduo em templos. Jesus andava com pecadores por amor, não por fuga ou prazer material, aliás, o que movia o Cristo em tudo era o mais alto e puro amor de Deus. Há uma certa esquizofrenia hoje em dia, e perdoem-me o termo que deve ser respeitado, muitos evangélicos conseguem ser uma coisa nas igrejas e outra em outros ambientes. Falam coisas diferentes, se portam diferentemente, têm dificuldades para serem íntegros, quando são os mesmos, são sem amor. Cristianismo do Cristo não é algo fácil de se viver, é preciso coragem, a que João e Jesus tiveram, ainda que sujeitando-se a fins terríveis. 

26/09/23

Cristo não veio trazer paz (3/7)

      “Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra” Mateus 10.34-35 

      Seguindo na série de reflexões “Provocações do Cristo”, mais um texto bíblico que precisa ser entendido certo. Jesus não veio unir, veio separar. Esse ensino completa o ensino de Mateus 8.21-22, e de uma forma mais abrangente, aqui o Cristo revela que a diferença entre os seres humanos que o seguem em relação a outros, não só mudaria as prioridades do homem, pondo em segundo lugar mesmo pais e família, mas colocaria o homem em situação de confronto. Citando espada, Jesus fala de guerra física, obviamente esse é mais um daqueles textos bíblicos que temos que reinterpretar as palavras que foram usadas originalmente para falar ao homem do passado. Nesse caso é preciso fazer isso com muita ênfase, já que o ser humano, naturalmente propenso a embates violentos, pode se achar ainda com direitos mais legítimos a isso se acreditar que está lutando numa guerra santa em nome de Deus. 
      A Igreja Católica fez isso por séculos, perseguiu e matou em nome da religião, o pior pecado dessa religião, que ao meu ver inviabiliza qualquer possibilidade de vê-la como representante oficial e exclusiva do Cristo na Terra. Como sempre digo aqui, ainda que Deus tenha usado e use o catolicismo para entregar Jesus à humanidade, violência, de qualquer espécie, e evangelho, não se casam. Mas, então, por que Jesus usou palavras tão extremas no texto acima? Porque a diferença entre trevas e luz é extrema, para ser treva basta um por cento de escuridão, já a luz é sempre cem por cento clara. Novamente o ensino de Jesus é: conhecer a fazer a vontade de Deus é prioridade para qualquer ser na Terra, acima de qualquer outra aliança, ainda que a prática disso seja em amor, humildade, santidade e paz. 
      Se o texto bíblico inicial não nos autoriza de forma alguma a exercer qualquer espécie de violência em nome do Cristo, ele nos alerta que não existe forma de vivermos na prática o evangelho sem termos desafetos, e muitas vezes dentro de nossos círculos familiares mais próximos. O cristão não é inimigo de ninguém, ama a todos, ora por todos, abençoa a todos, mas os outros podem, ainda que às vezes de maneiras bem sutis, se colocarem na posição de inimigos dele. Desanimarmos, querermos desistir da fé, acharmos que é injustiça de Deus, é entendermos a coisa erradamente, provar certas injustiças e reagirmos a elas com espiritualidade é prova que estamos no caminho certo em direção a Deus. Preocupados devem ficar os que têm no mundo só amigos e quem aprove seu estilo de vida plenamente.
      Ser diferente sem ser alienado, eis o desafio. Ser conhecedor de mistérios sem ser arrogante, eis a vocação dos amigos de Deus. Ter entendimento para ser mestre, maturidade para ser ouvido, experiência para curar, mas ainda assim ser sempre aluno, ouvinte e submeter-se humildemente à cura, como irmão de todos, não como patrão ou juiz, eis a experiência que Jesus viveu e nos chama a viver. O mais importante é entendermos que luz e trevas, reino de Deus e reino do mundo, glória do céu e glória do homem, são incompatíveis. Isso pode legitimar ataques de imaturos, alimentar guerras religiosas e moralistas, incentivar agenda de costumes na política, mas fortalecerá no espiritual o foco em Deus. Cristão de verdade não entra em conflitos e dá ao ser humano direito ao livre arbítrio, como Deus dá, respeitando diferenças em paz. A guerra existe, mas está fora, não dentro do amigo de Deus. 

25/09/23

Que os mortos enterrem os mortos (2/7)

      “E outro de seus discípulos lhe disse: Senhor, permite-me que primeiramente vá sepultar meu pai; Jesus, porém, disse-lhe: Segue-me, e deixa os mortos sepultar os seus mortosMateus 8.21-22

      Deixem que os mortos enterrem seus mortos, se formos entender e aceitar o que de fato Jesus disse com essas palavras, aplicando-as a nossas vidas ou nas vidas de muitas pessoas que dão valor e respeito enormes a pais, avós e outros familiares próximos, acharemos a orientação do Cristo dura, mesmo, insensível. Não existe até um mandamento de Moisés que orienta honrar os progenitores? (Êxodo 20.12) Pois bem, a chamada espiritual que cada um de nós tem, dada por Deus, pode ter mais relevância mesmo sobre algo tão sério como enterrar um pai. O ensino, contudo, tem um mistério que pode passar desapercebido, deixa os mortos sepultar os mortos. Estamos mortos ou vivos? Quais nossas prioridades, Deus ou os homens? Amamos nossos pais, mas temos Deus à frente deles, ou somos escravos de tradições humanas? 
      Jesus não manda que desrespeitemos ou desprezemos os pais, mas ele diz que aqueles que ainda não nasceram de novo, que não possuem uma conexão espiritual com o Deus vivo, sabendo e fazendo sua vontade, esses estão mortos. Como tais, não possuem outras prioridades neste mundo senão a morte, e tudo que é feito neste mundo sem ligação íntima com Deus, segue para um único destino, a morte do corpo. Essa poderá revelar também a situação do espírito, que já havia no plano físico, a morte espiritual ou segunda morte, que só será manifestada no plano espiritual entregando o ser humano a um inferno. O que busca em primeiro lugar o reino de Deus tem sabedoria, conhece as prioridades de Deus, sabe o que fazer e o que não fazer, e terá coragem para obedecer a Deus, ainda que homens não entendam, condenem e o persigam. 
      Qual a sua prioridade na vida, está seguindo para a vida eterna ou ainda está enterrando mortos? Todos temos a obrigação em amor de cuidar dos nossos idosos, assim como esperamos em Deus que sejamos cuidados quando envelhecermos, mas que não façamos disso nossa missão principal. Muitos passam a vida em velórios, celebrando cadáveres, não necessariamente de pessoas, mas de memórias, esses valorizam a morte, mas não como passagem, como fim. É importante nos prepararmos para a morte, mas focando no que vem depois, na avaliação que a luz de Deus nos fará, na qualidade do céu que teremos, a morte é só um parto, por mais dolorida que seja é só um evento antes da vida melhor. Um feto está vivo dentro da mãe, mas de maneira limitada, só com a morte do corpo físico é que teremos a melhor liberdade, a espiritual. 
      Celebrar a morte é prender-se ao passado, tanto para o bem quanto para o mal. Manter velórios na mente é não ter esperança num futuro melhor, mas amarrar-se a coisas boas do pretérito. Mas isso pode ser mais fantasia que realidade, construções mentais podem ser mentira, ainda que baseadas em fatos passados. O passado na verdade nem foi tão bom quanto achamos hoje, não era quando o vivemos. Deus leva-nos a trabalhar para construirmos presentes melhores, com futuros gloriosos que priorizam virtudes morais, não prazeres vãos deste mundo. Contudo, a morte pior que armazenamos na cabeça é mágoa dos outros e culpas nossas, vivendo no presente baseados no pior nosso e dos outros, que hoje pode nem mais ser realidade. Nós podemos mudar assim como os outros, assim tenhamos vida no Espírito de Deus e esqueçamos de vez os mortos.